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Devagar.

Estes passos carregam-me: põem-se um à frente do outro, vez e vez, metro a metro, como se o disputassem uma corrida aborrecida, em loop, sucedendo-se sempre o mesmo.
Tomam o seu tempo a arrancar da retaguarda, arrastando o peso de x ossos, x articulações, 5 dedos, 5 unhas e uma ânsia de suster o movimento.

Não os entendo;
Não entendo para onde vão, porque me levam.

Talvez não saibam;
Não saibam que o peso que carregam – grão a grão, grama a grama – foi dobrado, sem licença ou permissão.
Talvez não saibam que, quando se erguem e se arrastam, quando tremem e vacilam, não é mal deles: é do propósito.

Devagar, eles avançam.
Pouco temem, porque pouco vêem; a sobrecarga é tanta que lhes tolda os sentidos, a visão de o que sucede o presente.

Perguntei-lhes:
– “Para onde vamos?”
Responderam-me, em uníssono:
– “Em frente. Sempre em frente.

Não tive coragem de lhes contar do precipício.



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