xv

Uma mosca e um livro.

Voltei a ter uma mosca no quarto.
Assumo que não seja a mesma de que falei antes. Acima de tudo porque, tendo elas uma expectativa de vida entre 15-30 dias, parece-me absurdo desperdiçar um terço disso comigo.

Ao sentar-me na cadeira, perto da secretária, ela esvoaçou em zigue-zagues zangados.
Talvez tenha-lhe interrompido a leitura, já que ela observava atentamente a página 94 de um livro aberto, aquando da minha intromissão.

Eventualmente, lá me desculpou, e veio repousar na ponta dos meus dedos que, por sua vez, repousavam nas páginas do livro.

Pensei que quisesse retomar a leitura, mas o seu probóscide erecto contou-me que, mais do que alimento para a mente, ela estava desejosa era de alimento para o estômago.

Foto foi retirada daqui.

Sugou e sugou, divertindo-se nas pontas das minhas falanges distais a descobrir matéria orgânica invisível aos meus olhinhos, já cansados.

Foi por esta altura que me recordei da biologia de uma mosca: não tendo elas a capacidade de mastigar a comida, a natureza reservou-lhes os líquidos como forma de alimentação. No entanto, e recorrendo às palavras de Lavoisier:

Na naturezanada se crianada se perde, tudo se transforma.”

antoine-laurent de lavoisier

As moscas descobriram um processo alternativo marcadamente repugnante – “se eu cuspir e vomitar para cima deste sólido, crio uma solução que sou capaz de sugar.”

Ora, sendo eu um bom samaritano, incapaz de fazer mal a uma mosca, lá a deixei vomitar em cima de mim para depois me comer, imaginando que destinos piores haverão.

A partir de certo ponto, no entanto, começou a exaperar-me a incapacidade de atentar nas palavras do livro, com o vómito a infiltrar-se na minha concentração.
Assim, com um safanão, mandei-a ir bugiar.

Ela, aproveitando-se do meu bom samaritanismo, deu-me a outra face – pousando-me novamente nos dedos, mas com o sentido invertido.
Já farto de religião, dei-lhe mais um safanão, parecendo-me mais eficaz à segunda, do que à primeira.

Imagem para compreensão das duas faces de uma mosca.

Foi quando ela decidiu voltar a pousar no livro, causando o nascimento de duas observações:

  • Talvez eu seja apenas as “pipocas de um filme“; e ela, entretida a ler, foi-me comendo por mero regalo – o que não nego que me feriu as emoções;
  • A mosca, não tendo a minha racionalidade, é incapaz de assimilar a complexidade do que a preenche | O livro, não tendo a minha racionalidade, é incapaz de assimilar a complexidade do que o preenche.

Frustrado pela incapacidade de ler o sentido de uma única frase, fechei o livro com violência, quase esmagando a pobre coitada que, no último segundo, lá voou para longe.
Apesar de não o ter feito com essa intenção (bom samaritano), não teria deixado de ser curioso se ela morresse entre o livro, numa sanduíche irracional, incapaz de se compreender a si mesma.



Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: