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Georgia Lee e o que aprender das tragédias

Mais tarde ou mais cedo, há sempre uma música ou outra que me surge por mero acaso – muitas vezes em playlists que navegam autónomas – e me prende a atenção.

A mais recente, foi a Georgia Lee.


A primeira versão que ouvi foi no timbre meigo da Phoebe Bridgers, num contraste profundo com a violência do tema.

O refrão, em particular, apanhou-me indefeso:

Why wasn’t God watching?

Why wasn’t God listening?

Why wasn’t God there for

Georgia Lee?

tom waits

Procurei por essa tal Georgia Lee de quem Deus não pareceu muito interessante; e a versão original, descobri-a no Mule Variations, no timbre concordante do Tom Waits.

Georgia Lee Moses nasceu em 1985.
A 13 de Agosto de 1997, desapareceu.
O seu corpo foi descoberto a 22 de Agosto.

O trágico epílogo desta rapariga de 12 anos, no entanto, não é um contraste de uma vida feliz.

A Georgia era uma rapariga negra, que abandonou os estudos na “middle school” (o período do 2º-3º ciclo em Portugal). Vivia com uma irmã mais nova e a mãe – uma mulher com uma grave doença mental.
Pelo que se sabe, era Georgia quem sustentava e mantinha a família, praticamente sozinha.

“Ida said she couldn’t keep Georgia
from dropping out of school.
I was doing the best that I could
But she kept runnin’ away from this world.
These children are so hard to raise good”

Foram 9 os dias entre o seu desaparecimento e a descoberta do corpo. No entanto, até nesses 9 dias ficou profundamente evidente o desdém divino.

A realidade é que poucos sabiam da existência de Georgia Lee, e ainda menos souberam do seu desaparecimento.
Quando o seu corpo foi descoberto, o primeiro passo – antes de qualquer outro – foi identificar quem era esta rapariga morta no bosque, de onde vinham, como se chamava.

Close your eyes and count to ten
I will go and hide but then
be sure to find me. I want you to find me
and we’ll play all over
We will play all over again.

There’s a toad in the witch grass
There’s a crow in the corn
Wild flowers on a cross by the road
and somewhere a baby is crying
for her mom
As the hills turn from green back
to gold

Até hoje, quem a matou mantém-se um mistério – o que, infelizmente, ecoa mais a fado do que a surpresa.


O que se aprende com a Georgia Lee?

Da tragédia, como em tantos outros exemplos, surgiu um esforço pela redenção.

O local onde o corpo dela foi descoberto, tornou-se num símbolo das consequências do abandono e da neglicência. Ergueu-se um memorial – uma escultura de metal de um anjo – criada por dois bombeiros da região e conservada por voluntários até 2012, quando teve de ser transladado.

Foi, ainda, criado um centro “Children’s Village” para crianças abusadas e neglicenciadas – fundado por Lia Rowley, inspirada pela história da Georgia.

Claro que nada disto ajudou a Georgia Lee Moses, não quando ela precisou.
E ainda que a sua existência tenha trazido, a posteriori, um despertar evidentemente necessário para crianças a sobreviver nestas condições; é impossível não sentir um trago amargo no assombro que perdurou pela sua escassa vida.

É díficil – quase cruel – falar do que se aprende com uma tragédia assim. Mas, se algo há, talvez seja a consciência – o relembrar – de que não são só as divindades que conseguem ouvir um pedido de ajuda.

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