xxi

A juventude aos olhos de um jovem

Photo by Andrea Piacquadio on Pexels.com

Não sei.

Essa vai ser a conclusão do que vou escrever a seguir. E escrevo a conclusão no início porque parece-me justo, desde logo, dar a entender que o que se segue é, em parte, o que a imagem em cima mostra – mas o velho tem 24 anos.

Vamos aos factos:

  • A O.M.S. delimita a adolescência entre os 10 e os 19 anos;
  • Assim, eu fui adolescente entre 2006 e 2015;
TELEMÓVEISINTERNET
– A Apple revela o primeiro Iphone no início de 2007;
– Em 2010, é a vez do Ipad surgir;
– No mesmo ano, telemóveis Android começam também a ter a tecnologia touchscreen em pleno;
– Nos últimos três meses de 2010, venderam-se mais telemóveis do que computadores.
– O Facebook surge em 2004;
– O Youtube e o Reddit surgem logo no ano a seguir, em 2005;
– O Twitter, em 2006;
– O Instagram, em 2010;
– Em 2015, o Instagram atinge os 400 milhões de utilizadores. O Twitter, 316 milhões.
– No mesmo ano, e num único dia (24 de agosto), um milhão de milhões de pessoas (1 em cada 7 pessoas no planeta), acederam ao Facebook.
retirado do New York Post
  • Este gráfico mostra a evolução do uso da internet nos telemóveis e tablets, em relação aos computadores, no mundo inteiro. Só a partir do fim de 2013 é que os telemóveis adquirem valores superiores a 20%.

Onde é que eu quero chegar com isto?
É que, de certo modo, a Internet – pelo menos a versão para o utilizador comum a que todos acedemos, hoje em dia – cresceu comigo.

Conforme eu cresci, alarguei os ombros e ganhei bigode – também a Internet aprendeu a pôr anúncios em vídeos, a chamar empresas para vender online e a criar um mercado global.

E isso, parecendo que não, torna a perspectiva da minha geração interessante, pois fomos, simultaneamente:

  • A única que cresceu com a “mercantilização” da Internet;
  • A última a não ter anúncios directamente direccionados a si, pelo menos nos nossos anos de adolescência.

Voltando, por um momento, aos factos:

  • Os media têm, hoje em dia, uma influência directa (com a publicidade direccionada) e indirecta (por exemplo, a sexualização do conteúdo do Instagram, Facebook, Snapchat e Youtube) nas crianças e adolescentes (raising children);
  • Neste artigo português, concluiu-se que a exposição aos media é cada vez maior e mais precoce;
  • Na proposta do Orçamento do Estado para 2021, surge um Plano Nacional de Literacia Mediática que pretende combater a desinformação nas idades escolares. Peca não só por tardia (é só olhar para a tabela com as datas, em cima) como por insuficiente, ao não preencher a gigante lacuna que é ensinar os jovens a compreender a publicidade, algo cuja influência está presente de cada vez que eles pegam num telemóvel.

O culminar de tudo isto – e de onde origina a minha preocupação – é no que actualmente se vê no Youtube Portugal.

O Youtube sempre foi a minha rede de eleição, é que mais uso e onde, certamente, já afoguei mais horas.
Assisti ao nascimento dos anúncios nos vídeos em primeiro mão e, mais tarde, à publicidade feita directamente pelos Youtubers – uma marca paga a um Influencer para que este experimente e fale da marca ou produto.

Foi assim que muitos destas pessoas conseguiram que um hobbie se tornasse num emprego a tempo inteiro.


O Youtube Portugal, no entanto, é um caso particular.

Dada a audiência jovem, muito do conteúdo feito cá partilha dessa característica, percorrendo os temas de interesse para os adolescentes.
Um dos mais frequentes e intensamente explorados, é a indústria dos jogos (quase escrevi videojogos).

Eu não vejo nada de errado com isso – desde filmarem-se a jogar, às conversas sobre os jogos em si, ou sobre as consolas e computadores – também eu já frequentei os mesmos temas.

O que realmente me incomoda (e até preocupa), é a banalização – ao longo deste ano – da publicidade aos sites de casino e jogos de sorte e azar.
Em muitos destes Youtubers, os vídeos contêm segmentos inteiros para este destino, prometendo “50 € GRÁTIS se usares o código XXX”.

Photo by Daria Sannikova on Pexels.com

São sites que funcionam como qualquer casino real, à base do vício. Aposta-se dinheiro real e perde-se dinheiro real – lá uma ou outra vez, claro que se ganha alguma coisa, mas isso apenas justifica gastar mais.

São dirigidos a audiências evidentemente jovens, muitos destas numa estranha idolatria que os cega para lá da idade.

Neste artigo do The Guardian, são expostas as minhas preocupações:

  • Exposição regular a publicidade de jogos de azar pode alterar a perceptiva e associação às apostas, culminando numa maior probabilidade de sucumbir a estes, no futuro;
  • A migração deste género de publicidade dos media tradicionais para o online apresenta maiores riscos para as crianças e jovens;
  • Os visados da publicidade de hoje, serão os que terão problemas de jogo no amanhã.

Não deixa de ser curioso como a publicidade ao álcool e ao tabaco tem acérrimas limitações ou mesmo proibições mas, ao mesmo tempo, temos publicidade a apostas a ser dirigida para miúdos, por ídolos dos miúdos, simplificada para miúdos.

Não sei, tal como vos disse.
Vai-se a ver e isto é só preocupação mal fundamentada e sem qualquer discernimento.

Contudo, no mínimo, acho que seria importante olharmos, com um pouco mais de atenção, para o que o consumo contínuo de publicidade direccionada está a causar na juventude em crescimento.
E talvez apostar numa educação que os ensine a racionalizar para o mundo de hoje, em vez de para o de há 50 anos atrás.

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