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Platão e o amor platónico

Hoje em dia, descrevemos o amor platónico como uma ligação amorosa entre duas pessoas, espiritual, sem desejo sexual.

Esse, no entanto, não é o significado inicial – pelo menos, não exactamente.


Como já falei antes (ver xiv), Platão defendia dois domínios:

  • Domínio do Ser – das Formas ou Ideias, que são perfeitas, eternas e imutáveis, e das quais o mundo sensorial é apenas uma sombra (portanto, um mundo “espiritual“);
  • Domínio do Devir – o mundo sensorial, o que os nossos sentidos nos oferecem (portanto, o mundo “material“).

Por exemplo:

  • Se 5 pessoas desenharem um triângulo, todos os triângulos vão ser diferentes – seja nas linhas, no tamanho, na cor. Ou seja, estes triângulos (imperfeitos) serão os que residem no Domínio do Devir (material).
  • Apesar disso, quem quer que olhasse para qualquer um dos triângulos diria que, efectivamente, são triângulos. É essa coisa que faz deles triângulos – a sua “triangulidade” – que é a Forma do Triângulo (do mundo espiritual).

Esta lógica pode aplicar-se a praticamente tudo:

  • Tudo o que dizemos que é belo – é porque deriva da Forma da Beleza;
  • Tudo o definimos como montanhas – partilham a Forma da Montanha;
  • Todos os bichos a que chamamos gatos – são versões imperfeitas da Forma do Gato.

A famosa alegoria da caverna (que vem do livro VII da República de Platão) ajuda-nos a perceber este conceito:

Os prisioneiros (à esquerda):

  • Acorrentados nos seus lugares, tudo o que vêem são as sombras projectadas nas paredes, e é assim que percepcionam a realidade;
  • As sombras são o Domínio do Devir (mundo material, que os nossos sentidos nos mostram);
  • Os prisioneiros representam aqueles que vivem acreditando que o Domínio do Devir é tudo o que existe, inconscientes que apenas percepcionam sombras;
  • Representa, também, a limitação da linguagem – um prisioneiro diria “estou a ver um cavalo.” quando, na verdade, está apenas a ver a sombra de um cavalo – do mesmo modo que as nossas percepções da realidade não passam de “sombras” das Formas.

O Fogo e as figuras (no centro):

  • Um prisioneiro que olhe para trás, perceberá que existe algo para lá das sombras – algo que cria as sombras;
  • Assim, representam os que entendem que há mais do que o que os nosso sentidos nos dizem, um mundo para lá do sensorial, para lá do Domínio do Devir.

A fuga e o Sol (à direita):

  • Um prisioneiro que consiga fugir, ao chegar à entrada da caverna, verá a «real realidade», as coisas como elas realmente são, o Domínio do Ser;
  • Para conseguirmos chegar a este ponto, não podemos recorrer aos nossos sentidos mas, tal como falei em xiv, às nossas almas imortais;
  • Segundo Platão, as nossas almas pertenciam ao Domínio do Ser (reconhecendo a «real realidade») no entanto, ao entrarem nos nossos corpos, esquecem-se de tudo (Teoria da Reminiscência);
  • É possível recordar as almas do que sabiam, através da educação.

Na obra Simpósio (de Platão), é-nos explicado como este processo de reaprendizagem funciona, partindo de comum desejo para a contemplação elevada:

  • Como uma escada, o amor pela beleza de alguém, pode ser uma via para o amor da Beleza em si e, deste, para o amor (elevado, intelectual) pela mais elevada das Formas «o Bem».

Na alegoria da caverna, o Bem é representado pelo Sol.


Apesar de lhe emprestar o nome, a expressão amor platónico (Platão > Platónico) nunca foi usada por Platão.

Marsilio Ficino (1433-1499) – um estudioso italiano, padre católico e filósofo no início do Renascimento – foi quem primeiro usou o termo para descrever o amor da alma pelo Bem (Deus) quando, ao ascender pela “escada”, contacta com ele, sem intermédios. Ou seja, uma relação com Deus, não com outro humano.

Com o tempo, a figura do Bem evoluiu para a figura feminina – enquanto “alvo de adoração” masculina – e, daí, a expressão foi-se diluindo para a versão dos dias de hoje: sem tanta da noção de adoração, mas mantendo a ideia de uma relação espiritual.

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