xxiv

Ode aos Cães
ou
O sol, o Zeca Afonso e o meu cão

Os cães são animais de rotina.
Gostam de saber o que se sucede – mas não o que está lá no longe, isso fica para depois. Interessa-lhes o próximo momento, a hora que aí vem, as razões para se mover.

É simples, no seu conceito, mas não tão simples de pôr em prática – principalmente quando se vive sem controlo do que aí vem.


Todos os dias o meu cão acorda a saber que vai passear.
Aguarda, numa demonstração de paciência herculana, por um movimento meu que indicie o meu despertar, o meu desejo de me erguer. É então que, num salto indiferente à arredondada década de vida, descreve toda uma complexa rotina de sons, gestos e movimentos que dão os bons-dias ao mundo.

A rotina envolve:

  • Setenta e quatro bocejos;
  • Quarenta e cinco espreguiçares;
  • Contínuas réplicas do som do embate das unhas no chão de madeira, para trás e para a frente, na indecisão entre aguardar que as forças mágicas abram a porta ou vir confirmar que eu não adormeci (pecado capital).

Segue-se um passeio – ou o passeio, como ele designa cada um dos mais de seis mil que já fez, na vida.
Para mim, são lições de humildade.

Zeca Afonso cantava:

Em cada esquina, um amigo.”

E poucos levarão este ideal tão a peito como o meu cão. Não só em cada esquina; mas em cada flor, cada mancha no chão, cada buraco na terra.
Com o maior dos detalhes, ele investiga os amigos que a visão limita, aqueles que vivem nos outros sentidos, navegando em odores, sons, sabores: minuciosidades.

O retorno – que poderia prever-se como um momento de desânimo – representa, na verdade, o nascimento de um outro prazer: o satisfazer da fome.


Vejo-lhe, ainda assim, um certo desassossego ao pequeno-almoço, que (novamente) Zeca Afonso descreve na perfeição n’Os Vampiros:

“São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada”

A opulência, a ostentação, a riqueza dos odores – preenche-lhe os sentidos, na expectativa do alcance.
Ainda assim, contrai-se. Ele sabe, numa contradicção que o atormenta, que é a ausência de pedido, que faz o pão aparecer.


A real bonança, no entanto, só surge depois.

Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores

Há algo que o sol diz à vida que, anterior às palavras, é infrutífero traduzir. Chamamos-lhe amor, na falta de melhor expressão, mas não é amor que uma mãe sente ao ver o filho – ou um filho a ver a mãe.
Transcende esse conceito, tão humano, para o profundo incógnito que habita algures, entre nós e tudo o resto.

O sol e o meu cão partilham esse mesmo entendimento.
Quando o astro surge, lá no alto, por entre os edíficios que o tentam esconder, o meu cão corre lá para baixo, escava a porta até que a abram, e vai quintal fora, escadas acima, até sentir o calor no pêlo. Senta-se, então, e, de olhos semicerrados, o âmago expõe-se perante a natureza.


Acho difícil que o meu cão consiga ouvir Zeca Afonso – já que ele nem à televisão dá atenção, e essa tem movimento.
Acredito, contudo, que mesmo sem saber – talvez na medula que nos define – o Zeca Afonso não só ouviu, como percebeu o meu cão.

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