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2020 de uma perspectiva final

Ano difícil.
Mas, na verdade, não podemos dizer isso de todos?

É provável que sim. Pelo menos, alguém pode dizer do ano x, e outro qualquer do ano y, e vamos de ano em ano até que todos tenham par.

Photo by cottonbro on Pexels.com

O que realmente considero peculiar é que: quer que achasse que ia ser um bom ano ou um mau, quer se vivesse num canto ou no outro, num estrato ou noutro – todos fomos afectados pelo mesmo.
Não de igual modo – que é uma diferença importante – mas, ainda assim, todos sentimos as consequências dum bichinho invísivel.

Vamos aos factos (tabela chata, é só uma evolução simplificada da pandemia, sintam-se convidados a saltar à frente) :

9 de Janeiro World Health Organization (WHO) anuncia a relação entre um novo coronavírus e pneumonia em Wuhan (China).
23 de Janeiro Confinamento de Wuhan e Huanggang (18 milhões de pessoas), algo sem precedentes.
24-31 de Janeiro1º caso confirmado em França, Alemanha, Itália, Espanha, Suécia e Reino Unido.
31 de JaneiroWHO declara Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional.
2 de Março1º caso confirmado em Portugal.
12-16 de MarçoPrimeira e Segunda Ligas de futebol suspendem jogos por tempo indeterminado;
Museus, monumentos e palácios nacionais encerram;
Limita-se a circulação na fronteira com Espanha;
Todos os estabelecimentos de ensino públicos e privados fecham.
18 de MarçoEstado de Emergência é declarado em todo o país.
2 de MaioÉ feita a transição do Estado de Emergência para o Estado de Calamidade, com aplicação faseada de medidas de desconfinamento.
28 de OutubroPassa a ser obrigatório o uso de máscaras em espaços públicos.
9 de NovembroEstado de Emergência é novamente declarado.
27 de DezembroInicia-se vacinação para a Covid-19, com a vacina desenvolvida pela Pfizer.

Com 24 anos, é difícil escrever frases de aplicação geral, sem soar como uma criança privilegiada. O que eu vejo é, sem sombra de dúvida, uma influência das minhas experiências, das minhas percepções, das minhas diminutas realidades.

Assim, o que se segue é, primeiramente, de mim para mim.
Ainda assim, acredito nestas afirmações e, mais importante, acredito que a discussão que elas trazem é necessária:

  • Foi um ano de aprendizagem

Para melhor ou para pior, e de formas e feitios muito diferentes, vimo-nos perante uma tarefa imemorável: conviver com nós próprios.

Talvez seja um mal geral, mas raramente encontro alguém que goste imenso de si. A maioria tolera-se, o que já não é mau.
Ainda assim, e com um ano tão predisposto a alongar-se como este, parece-me fictício acreditar que entrámos e saíremos iguais.
Não sei dizer o que mudou, nem que aplicação vai ter mas, mesmo que não seja para agora, um dia destes – com as voltas que o mundo dá – há-de dar jeito.

  • Perante situações novas, todos improvisam – mas uns melhores do que outros

Vimos expressões públicas de formas exímias de arrogância e solidariedade.

Tive uns amigos que se ofereceram, no seu condóminio, para ajudar quem precisasse com compras. No Natal, uma das pessoas do apartamento ofereceu-lhes chocolates pela segurança e descanso que isso lhe trouxe – apesar de nunca ter precisado.
Uma acção simples, sem consequências para o movimento da Terra, mas bela.

Por outro lado, pessoas usaram a máscara assim.

Photo by cottonbro on Pexels.com

Ou não usaram de todo.
Ou tentaram convencer-me que o Covid não é real.

Onde quero chegar é que todas estas acções traduzem o mesmo – um desejo pela sobrevivência – apenas expressa de modos muito distintos e, alguns, questionáveis.

Para mim, há algo reconfortante nisso: em saber que eu e o gajo-que-usa-a-máscara-na-testa partilhamos algo – que seja a natureza da sobrevivência, se mais nada for.

  • Educação deveria ser uma base indiscutível

Se é verdade que há esse algo que nos conecta a todos, é também indiscutível que, muitas vezes, não o sabemos expressar.

A comida mata a fome, em oposição à fome nos matar a nós.
Vejo a educação do mesmo modo: ou nós alimentamos estas fissuras, ou elas alastram e levam-nos com elas.

Em 1938, Orson Welles causou pânico ao interpretar, na rádio, o romance “The War of the Worlds” de H.G. Wells. Muitos acreditaram que a invasão alienígena estava realmente a acontecer.

Em 2020 (82 anos depois), temos terraplanistas, movimentos anti-vacinas e negacionistas.

Fontes: Sic Notícias e EPA

A mim, parece-me uma inversão da realidade.
Seria muito mais credível, em 1938, estarem a duvidar das vacinas, da forma da Terra ou da veracidade de uma pandemia, do que em 2020.
Para lá que é muito mais divertido acreditar numa invasão alienígena.

Reparem na diferença:

19382020
Indivíduo normal ouve na rádio sobre invasão alien e fica assustado.Indivíduo normal (não-cientista, não-físico, não-médico) afirma que informação comprovada pela ciência não é verdade.

Penso – novamente, com os meus 24 anos – que este despertar reverso para conspirações, traduz uma falha nos sistemas de educação a que deveríamos tomar real atenção.

De nada serve obrigarmos crianças a decorar a tabuada, se não os ajudarmos a entender a aplicação dos números.
De nada serve obrigá-las a memorizar datas históricas, se não lhes explicarmos a tendência que a história tem de se repetir, e a importância de aprendermos – enquanto Humanidade – com os erros do passado.


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Em suma,

Não vai ficar tudo bem.
Pelo menos, não do modo que desejávamos.

Não para as 1,805,521 (6830 em Portugal) pessoas que esta doença, tragicamente, levou.
Não para as 82,745,324 (406 051 em Portugal) pessoas que foram infectadas e viram a vida andar para trás.
Não para todos que viram as suas famílias desmembradas, os seus empregos perdidos, a sua saúde mental em declínio.

Imagine-se dizer, em 1945 – com os terríveis crimes contra a humanidade que foram cometidos – que “vai ficar tudo bem.”

Seria muito triste se este ano – caótico sem precedentes – não trouxesse reais reflexões, propulsoras de reais mudanças.
Devemos aos mortos não deixar que este ano desvaneça no esquecimento.

Feliz Ano Novo.

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