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A herança que nunca nos chegou.

Não é surpresa que a ascenção e domínio do cristianismo se tenha traduzido no extermínio de muita da bibliografia e cultura material da Antiguidade – desde a queima de livros “pagãos”, à destruição de templos e desfiguração de estátuas e pinturas.

A união das várias versões do cristianismo exigiu, invariavelmente, que tudo o resto fosse visto como herege e suprimido.

A isto, somam-se os povos “bárbaros” – hunos, godos, visigodos – cujas sucessivas tentativas e, por fim, sucesso de invasão do Império Romano no Ocidente, ainda mais aceleraram o colapso cultural.

Esquerda – Cabeça de Afrodite (a zona danifica retrata uma cruz)
Direita – Paul in Ephesus de Gustave Dore

Talvez o que mais me surpreendeu, foi entender a dimensão do que foi perdido. Seguem-se exemplos (e apenas alguns):

  • De Aristófanes (447-385 AEC) – dramaturgo de Atenas – sobreviveram 11 das mais de 40 peças que se sabe que existiram;
  • De Ésquilo (525-456 AEC) – outro dramaturgo – temos 7 dos 70 títulos que se conhecem;
  • Através do que se conhece por alusões em escritos desse período, há qualquer coisa como 170 dramaturgos humorísticos com 1483 peças entre si, que se perderam;

Nos filósofos pré-socráticos – assim designados não por serem anteriores a Sócrates, mas pela diferença nos interesses de estudo entre estes e Sócrates – esta perda é ainda mais pronunciada:

  • De Heraclito (540-470 AEC) sobraram fragmentos do seu livro único, não sendo clara a ordem – o que é importante, já que diferentes ordens levantam diferentes interpretações;
  • Zenão de Eleia (490-430 AEC) conhece-se pelas obras de Platão e Diógenes Láercio;
  • De Demócrito (460-370 AEC) só sobreviveram citações e relatos de outros, nada das suas obras (e falamos de um homem que desenvolveu a teoria atómica – a que mais se aproxima das concepções actuais científicas, de entre as várias teorias de filósofos gregos).

Mas como é que se organiza a informação dispersa sobre alguém?
Através da Doxografia.

Doxografia
Do grego dóxa (δόξα) = visão, opinião, parecer;
Do grego graphien (γραφία) = escrever

Consiste, assim, na tarefa de identificar e coligir o que existe sobre um determinado autor.
Esta informação que existe, pode vir na forma de fragmentos – citações dos próprios em obras de outros autores – ou testimonia – relatos, paráfrases e resumos de outros autores sobre eles.

Como é fácil de deduzir, apesar do extenso e dedicado trabalho, há muito que tem de ser lido com cautela. Já que, em parte, ao serem citados ou relatados por autores posteriores, estes fazem-no mais por proveito dos seus próprios pontos de vista, do que para preservação do passado.


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Um exemplo incrível deste tema é Aristóteles pois, não só falamos de alguém que foi extremamente prolífico (com obras a abrangir desde as questões fundamentais da realidade, a estudos sobre os seres humanos, a arte, a literatura, ética e política) como também de alguém cuja influência se estendeu da sua vida (384-322 AEC) ao presente.

Isto, só torna mais curioso compreender que o que temos de Aristóteles não são as suas obras – já que as que ele aprimorou para publicação perderam-se – mas textos das suas aulas e notas de investigação (e mesmo, dentro destas, as que sobreviveram).

E até o facto de termos os escritos que temos hoje, não deixa de ser por uma mera questão de sorte. A história é a seguinte:

Os escritos foram deixados de Aristóteles ao sucessor da sua própria escola – Teofrasto – que, por sua vez, os transmitiu ao seu discípulo – Neleu.
Neleu levou-os para Escépcis, na Trôade, onde deixou os escritos aos seus descendentes.
Sem interesse em filosofia, os descendentes de Neleu guardaram-nos numa cave, onde teriam – eventualmente – sido destruídos pela natureza (humidade, mofo, insectos).
Foram, antes disso, comprados por um colecionador e bibliófilo ateniense – Apelicão – que os armazenou na sua biblioteca.
Aquando da conquista da Grécia por Roma, na primeira guerra mitridática, e captura de Atenas em 86 AEC, o general romano Sula tomou a biblioteca de Apelicão como espólio de guerra.
Os escritos foram, assim, levados para Roma onde – o verdadeiro herói no meio de isto tudo – Andrónico de Rodes (sobrevivente da escola de Aristóteles) organizou-os e preservou-os.

Fonte – Uma História da Filosofia (A. C. Grayling)


É quase absurdo pensar que, em vários destes casos, o que determinou a imortalidade ao oblívio, foi alguém ter falado sobre alguém, e essas palavras terem chegado aos dias de hoje.
É ainda mais (quase) absurdo, considerar a influência que isso teve no mundo, como o conhecemos, e no quão diferente tudo poderia ser, por uma decisão diferente.

Há uma ideia que, para mim, se destaca no misto de tantas outras:

  • Há pouco, neste mundo, capaz de exemplificar o engenho humano de uma forma tão simples, como as palavras.

A estes gatafunhos com que transmitidos ideias, devemos a nossa evolução, o nosso desenvolvimento colectivo.

Imagine-se pensar sem palavras, deduzir sem palavras, raciocinar sem palavras.
Imagine-se tentar desenvolver uma sociedade sem conseguir comunicar aos outros o que define essa sociedade.

Estaríamos em ciclos contínuos dos mesmos descobrimentos, pois não conseguiríamos partilhar essa informação com as gerações seguintes.

Photo by Jimmy Chan on Pexels.com

As palavras são o nosso legado último. Cada que se perde – ou que já se perdeu – é, em última análise, uma perda para toda a Humanidade.


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