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Nick Cave e o luto.

A 14 de Julho de 2015, Arthur Cave – filho de Nick Cave – com apenas 15 anos, caiu de um penhasco, em Ovingdean, e faleceu devido aos ferimentos.

Em 2019, Nick Cave lançou Ghosteen, um álbum marcado, invariavelmente, pela expressão dessa perda.


Para mim, a perda e o luto têm uma manifestação muito particular, com a qual me identifico numa singular profundidade.
Talvez porque, ao contrário de tantos outros temas e modos de expressão, o luto é totalitário, e a sua expressão nada mais pode ser do que honesta – talvez o zénite da honestidade.

Nick disse, em resposta a uma pergunta de uma fã sobre se sentia a presença do filho:

“Grief and love are forever intertwined. Grief is the terrible reminder of the depths of our love and, like love, grief is non-negotiable. There is a vastness to grief that overwhelms our minuscule selves.”

“O luto e o amor estão eternamente interligados. O luto é o terrível lembrete da profundeza do nosso amor e, como o amor, o luto não é negociável. Há uma vastidão no luto que oprime as nossas minúsculas existências.”

O amor e o luto não são negociáveis.
Ao existirmos, rendemo-nos a essa máxima – invariavelmente vamos amar, e invariavelmente vamos perder o que amamos.

Eis algo que me atormenta:

E se fosse negociável?
Se Deus descesse à Terra e, perante cada um de nós, na sua omnipresença, oferecesse-se a opção:

Queres sentir – e viver entre a dor e o oposto – ou não sentir – e nunca experienciar qualquer uma delas ou sequer a vontade de as vivenciar?”

Experimentem, por um momento, remover as barreiras do constrangimento (prometo que não estamos num romance do Nicholas Sparks), e proporem-se, com realismo, este cenário – Deus perante vós, a pergunta e a obrigação de responder.

Têm uma resposta imediata?
Se a pergunta surgisse após a vinda da morte – de um pai, de um filho, de um amigo próximo – deixaria de o ser?

Pior cenário ainda: se surgisse após, acidentalmente, matarem alguém – atropelado, tropeçado nos vossos pés – escolheriam não sentir o remorso?
E o da família de quem mataram – apagar-lhes-iam a raiva, o luto?


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O álbum inicia-se com a “Spinning Song” onde, num choro, se canta:

“And I love you, and I love you, and I love you.
Peace will come, a peace will come, a peace will come in time.
A time will come, a time will come, a time will come for us.”

“E eu amo-te, e eu amo-te, e eu amo-te.
Paz virá, uma paz virá, uma paz virá com o tempo.
Um tempo virá, um tempo virá, um tempo virá para nós.”

Termina, uma hora depois, com “Hollywood“, num novo uivo:

“It’s a long way to find peace of mind, peace of mind.
And I’m just waiting now, for my time to come.
And I’m just waiting now, for peace to come, for peace to come.”

“É um longo caminho para encontrar paz de espírito, paz de espírito.
E eu estou à espera, agora, pela minha hora
E eu estou à espera, agora, para que a paz venha, para que a paz venha.”

Antes do fim, no entanto, Nick conta-nos uma história vinda do Budismo, de Kisa Gotami.

Kisa, em desespero pelo rápido adoecimento e falecimento do filho, recusa-se a aceitar a sua morte, carregando o seu corpo pela aldeia em busca de ajuda.
Não havendo nada que pudesse fazer – mas sensibilizado pela dor da mãe – um idoso aconselha-a a ir ver o Buda.

Ao ouvir a sua história, Buda diz a Kisa que, para que o seu filho renasça, ela terá de lhe trazer uma semente de mostarda (mostard seed) de uma casa onde nenhum residente tenha perdido um membro da família.

imagem retirada de The Vampire’s Wife

Kisa vai, de casa em casa, numa busca desesperada pelas condições impostas por Buda mas, após percorrê-las todas, compreende que em todos os lares perderam-se membros familiares.

Kisa aceita finalmente a morte do filho, ao compreender que o luto, a perda e a morte são universais, inevitáveis e uma parte natural da vida.


Pelo meio de Ghosteen, há a minha predilecta – Waiting for You:

Com as minhas duas passagens favoritas do álbum (que surgem seguidas, mas aqui separo-as):

A Jesus freak on the street says, “He is returning”.
Well, sometimes a little bit of faith can go a long, long way.”

“UM FANÁTICO, NA RUA, DIZ “ELE ESTÁ A REGRESSAR.”
POR VEZES, UM POUCO DE FÉ PODE IR MUITO, MUITO LONGE.”

“Your soul is my anchor, I never asked to be freed.”

“A Tua alma é a minha Âncora, eu nunca pedi para ser liberto”

Há dois sentimentos que transcendem o Ghosteen: o abismo do luto e a perseverança do espírito humano.

Na resposta à fã que referi no início, Cave explica que ouve o filho a falar com ele, a guiá-lo – em forma de fantasmas, espíritos e visitas em sonhos.
Diz-nos, ainda, que estas dádivas “are as valid and as real as we need them to be.

Traduzo eu, nas minhas palavras (que podem, como qualquer coisa, distorcer o sentido original) que, perante o arrasar do luto, qualquer forma de esperança é aceite – real ou imaginária, física ou divina, assente no nosso mundo ou noutro qualquer.
Em contraste, e como disse Cave, o amor é o alfa do ómega, o positivo do negativo – a mesma dimensão em sentido oposto.

Não tenho conclusões – mas talvez seja esse o propósito.
Afinal, as conclusões são indiferentes – no acto de concluir, nada se constrói, só se torna legível o que se construiu.

Foquemo-nos antes no que já existe, então.

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