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ODAP – A neurotoxina que liga Christopher McCandless e o Holocausto.

O filme surgiu em 2007.
O livro, em 1996.
No entanto, antes de isso tudo, havia um homem:

Christopher McCandless.

Christopher “Alexander Supertramp” McCandless

PASSADO

O Chris nasceu na El Segundo, Califórnia em 1968, mas mudou-se com a família – os pais e a sua irmã mais nova Carine – para Annandale, Virgínia em 1976.

As circunstâncias do seu crescimento estão, hoje, envoltas em mistério.
Em 2014, no livro de memórias The Wild Truth, a irmã Carine descreveu situações de abuso (verbal, físico e sexual) entre os pais, e também para com os filhos – situações motivadas pelo alcoolismo do pai.
Pouco depois do lançamento do livro, os pais vieram a público negar as acusações da filha.

No Verão de 1986 – com 18 anos e quase a entrar na faculdade – o Chris viajou para Califórnia onde restabeleceu contacto com familiares e amigos dos seus tempos de infância.
Terá sido nesta viagem que Chris descobriu que o pai, antes da mudança para Virgínia, tinha uma vida dupla, mantendo um casamento com outra mulher, que durou até depois do nascimento de Chris.
Carine especulou, no livro dela, que esta descoberta – em conjunto com os abusos experienciados em criança – terão sido motivadores para o despertar da vontade de Chris em afastar-se da família.

Em 1990, após terminar os cursos de História e Antropologia na universidade, Chris doou o dinheiro que tinha (24 mil dólares) à OXFAM, abandonou o carro, e começou a sua fatídica viagem.


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A VIAGEM

Iniciada no verão de 1990, Chris só chegou ao seu destino – o Alasca – em Abril de 1992.
Nesses 2 anos, fez milhares de quilómetros -a pé ou à boleia – vivendo de trabalhos precários e ajudas.

Percurso feito Chris entre 1990-1992. (fonte)

Adoptou o pseudónimo “Alexander Supertramp”, apresentando-se, muitas vezes, como Alex a quem ia encontrando.

As peripécias que viveu, no caminho, estão detalhadamente descritas – quer no filme, quer no livro. O seu objectivo final, no entanto, foi sempre o Alasca.


ALASCA

Foi no dia 28 de Abril de 1992, a última vez que Chris foi visto com vida – por Jim Gallien, um electricista que lhe deu boleia até ao início da Stampede Trail.
Daqui, Chris seguiu sozinho, com uma mochila às costas, para o interior do Alasca selvagem.

Encontrou a sua casa num autocarro abandonado – Fairbanks 142.

Foi onde viveu pelos duros meses em que sobreviveu no Alasca; e foi onde seu corpo foi descoberto – 19 dias depois de morrer.

“Two years he walks the earth, no phone, no pool, no pets, no cigarettes. Ultimate freedom. An extremist. An aesthetic voyager whose home is the road. Escaped from Atlanta. Thou shalt not return, ‘cause “the West is the best.” And now after two rambling years comes the final and greatest adventure, the climactic battle to kill the false being within and victoriously conclude the spiritual revolution. Ten days and nights of freight trains and hitchhiking bring him to the great white North. No longer to be poisoned by civilization he flees, and walks alone upon the land to become lost in the wild. – Alexander Supertramp, May 1992.”

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MORTE

Não deixa de ser curioso que, até as circunstâncias da sua morte foram, em parte, atípicas.

No autocarro abandonado, foi encontrado uma página de um romance de Nikolai Gogol, onde Chris escreveu:

attention possible visitors.

s.o.s.

i need your help. i am injured, near death, and too weak to hike out of herei am all alone, this is no jokein the name of godplease remain to save me. i am out collecting berries close by and shall return this eveningthank you,

chris mccandless

august ?

“Atenção possíveis visitantes.
S.O.S.
Preciso de ajuda. Estou ferido, próximo de morrer, e demasiado fraco para conseguir sair daqui a pé. Estou sozinho, não é uma piada. Em nome de Deus, por favor fiquem para me salvar. Fui colher bagas perto daqui e devo voltar esta noite. Obrigado,
Chris Mccandless
Agosto ?”

Infelizmente, ninguém por lá passou – pelo menos, não antes da sua morte.

Quando foi encontrado, por caçadores, Chris pesava pouco mais de 30 quilogramas e já o organismo tinha consumido toda a gordura subcutânea.
Daí, deduziu-se a fome como causa de morte.

Neste ponto, é importante referir que quem originalmente escreveu um artigo sobre Chris – e, mais tarde, o livro – foi o jornalista Jon Krakauer.
Krakauer discordou desta conclusão – da fome como causa de morte – ao especular que Chris poderia, inconscientemente, ter-se envenenado com as sementes que ingeriu – potato seeds.

Esta ideia era fundamentada por uma entrada no diário de Chris, datada a 30 de Julho:

“Extremely weak. Fault of pot[ato] seed. Much trouble just to stand up. Starving. Great jeopardy.”

“Extremamente fraco. Culpa das sementes de batata. Grande dificukldade até para estar de pé. A morrer de fome. Grande perigo.”
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Análises feitas mais tarde, no entanto, não revelaram o alcalóide tóxico que Krakauker especulou.

Uma das possibilidades mais plausíveis só surgiu em 2013 – numa ligação aterradora com o holocausto:

Ronald Hamilton – um escritor e, em 2002, encadernador de uma biblioteca – deparou-se, por mero acaso, com o livro “Into the Wild“.
Recordou-se, ao ler sobre o estado em que Chris estava aquando da sua morte, de Vapniarca.

Houve um campo de concentração – menos conhecido – da 2ª Guerra Mundial, em Vapniarca, na Ucrânia.
Hamilton, alimentado pela curiosidade, conseguiu entrar em contacto com o filho de um homem que trabalhou no campo, como funcionário administrativo.

O filho enviou a Hamilton vários documentos onde estava descrito que, em 1942, no pretexto de uma experiência, os prisioneiros judeus começaram a ser alimentados com pão feito a partir de sementes de ervilha – mais precisamente, Lathyrus sativus, uma leguminosa da qual há milénios se reconhece a sua toxicidade.

Lathyrus Sativus taken at Sandwip Island – By Arr4 (talk) – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=34784026

Um dos prisioneiros no campo – um médico, Dr. Artur Kessler – rapidamente percebeu o que estava a ser feito quando, meses depois, os homens mais jovens começaram a mancar, usar paus como bengalas e, em alguns casos, arrastarem-se pelo chão, sem conseguirem usar as pernas.

Lathyrus sativus contém uma neurotoxina designada (em sigla) ODAP.
Esta substância, quando ingerida em grandes quantidades, causa uma doença neurotóxica irreversível – Latirismo – com consequências como a paralisia do membros inferiores e estreitamento dos ossos.

Foi a semelhança entre estes sintomas descritos em Vapniarca e o que Chris relata no seu diário que fizeram Hamilton associar os dois.

Sem fundos, no entanto, para financiar uma análise laboratorial às sementes, Hamilton publicou as suas especulações num artigo intitulado “The Silent Fire: ODAP and the Death of Christopher McCandless“.
Krakauer, ao descobrir o artigo, enviou as sementes para um laboratório onde confirmaram a presença de ODAP, em concentração suficiente para causar Latirismo.

Interessantemente, são os homens, na casa dos 20, subnutridos, com uma rotina de intensa actividade física, os mais susceptíveis a este tipo de envenenamento – uma descrição que em todos os aspectos coincide com a vida de Chris no Alasca.


LEGADO

Muito se falou de Chris após a descoberta do seu corpo, e do artigo publicado por Jon Krakauer.

Muitas vozes – principalmente dos habitantes naturais do Alasca – viram a sua viagem como irresponsável, trágica e algo próximo de um caminho deliberado para o suicídio.

Muitas outras, no entanto, viram em Chris uma figura heróica dos tempos modernos.

A sua vida e viagem foram de tal modo discutidas em artigos, filmes, livros e documentários, que do homem que ele foi, hoje vive o mito em que se tornou.

O autocarro onde Chris viveu foi, em Junho de 2020, retirado do seu local original e transportado para o Museum of the North, da Universidade do Alasca, onde será restaurado e exposto.
Esta decisão foi tomada após as viagens até ao autocarro terem ocasionado o salvamento de 15 pessoas e a morte de 2.


Em mim, ao ver o rosto sorridente de Chris, encostado ao autocarro onde morreu, ergue-se uma questão: o que faz dele uma figura tão polarizadora?

Hoje, vejo a resposta a essa pergunta em duas partes:

  • Genuinidade

Pode parecer ridículo de o dizer mas, ainda assim, sinto que por entre conversas e discussões, isto é muitas vezes esquecido – Chris era uma pessoa, não uma personagem.

Não sendo o tema – o idealismo, a libertação da sociedade – algo novo na cultura, o Chris não foi uma forma de arte ou uma tentativa de expressão: não foi uma pintura, nem um livro – foi uma pessoa.
As escolhas que ele tomou são genuínas a um extremo que, acredito, é próximo de impossível de traduzir.

A disparidade nasce dessa quebra da comunicação:
– Ou o vemos como o ápice do que serenamente ansiamos;
– Ou o desprezamos e desdenhamos, como a tantas tribos e civilizações, por não termos a mesma linguagem – deixa de ser igual a nós, torna-se algo externo, alien.

  • Tenacidade

É indiscutível a determinação de Chris – seja insensata, irresponsável, desmiolada ou não.
Chris definiu o seu sonho e investiu tudo o que tinha em atingi-lo.

Quantos podem afirmar o mesmo?

O que de trágico daí veio, é irrelevante.
A imagem da determinação, da total dedicação ao seu desejo profundo, da oposição violenta ao conformismo – e a predisposição para arcar com as consequências advindas dessa divergência; é singular.

Independentemente dos desenlaces que a sua viagem trouxe, ou se a vemos com conotações positivas ou negativas; Chris será, para sempre, o retrato palpável, físico, carnal da catarse de tudo o que nos reprime.

A sua última foto (no que terá sido um esforço imenso, dado o seu estado de fraqueza) e as suas últimas palavras (escritas na parte de trás de um livro), perante a certeza da morte, são o espelho disso mesmo.

“I have had a happy life and thank the Lord. Goodbye and may God bless all!”

“Tive uma vida feliz e agradeço ao senhor. Adeus e que deus vos abençoe a todos!”
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