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Os desafios da literatura num mundo tecnológico

Em pleno século XXI – e apesar de não o processarmos como tal – vivemos no futuro.

Surgem e difundem-se os carros eléctricos, investe-se em viagens espaciais e modos de transporte baseados na levitação magnética – inclusive, já houve a primeira viagem tripulada num destes aparelhos.
Nos nossos bolsos, habitam pequenos (e não tão pequenos) aparelhos capazes de aceder… a tudo o que se queira, do modo que se queira, de qualquer ponto de vista – real ou imaginário.

Os estímulos – deliciosos e viciantes – são contínuos.
Todos os nossos sentidos podem existir – se o permitirmos – numa euforia interminável, entorpecedora e concebida para nos engolir.

Onde se encaixa a literatura num mundo invariavelmente tecnológico e vibrante?

Photo by Mael Balland on Pexels.com

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Vamos aos factos:

Curiosamente, há apenas 2 diagnósticos feitos pelo P.N.L. sobre as práticas de leitura nas camadas mais jovens:

  • O primeiro, de 2007, e o mais recente “Práticas de Leitura dos Estudantes dos Ensinos Básico e Secundário“, cujos resultados iniciais (referentes ao 3º ciclo e secundário) saíram este ano;

Destes resultados, dos inquéritos feitos (em 2019) a 7.469 alunos, concluiu-se o seguinte:

  • A maioria dos inquiridos leu menos de 3 livros por prazer nos 12 meses anteriores ao inquérito;
  • Dos alunos do 3º ciclo, 21,8% não leram nenhum livro nesses 12 meses (em 2007 tinham sido 11,9%);
  • Dos alunos do secundário, 26,2% não leram nenhum livro no mesmo período (em 2007 – 11,3%);
  • 27,3% dos alunos têm menos de 20 livros em casa (quase duplicando os valores de 2007 – 14,5%);
  • Esta percentagem acima é importante, pois os resultados apontam para uma relação entre a leitura dos alunos e o contexto familiar – nomeadamente, a relação das próprias famílias com a leitura (57% dos inquiridos diz que a família tem uma relação distante com a leitura).

A visão que eu tenho é, obviamente, influenciada pelas minhas experiências escolares – que poderão ou não ser transversais – mas, ainda assim, acredito que há uma gigante desconexão entre aquilo que a escola oferece e aquilo que os adolescentes procuram (ou poderão procurar) nos livros.

Sinto – e senti isto – principalmente no secundário.


Tendo o valor que tem, já que é apenas um exemplo, deixem-me dar-vos um resumo rápido do meu percurso:

Eu comecei, como muitos, por ler banda desenhada. Daí, ao longo do meu crescimento, vieram (por ordem, mas com saltos propositados pelo meio):

Os Cinco (Enid Blyton)
Harry Potter (J. K. Rowling)
As Crónicas de Nárnia (C. S. Lewis)
Ciclo da Herança (Christopher Paolini)
O Principezinho (Antoine de Saint-Exupéry)
A Sombra do Vento (Carlos Ruiz Zafón)
Rosinha, Minha Canoa (José Mauro de Vasconcelos)
O Perfume (Patrick Süskind)
As Crónicas do Gelo e do Fogo (George R. R. Martin)
Ressurreição (Lev Tolstoi)
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As obras que em cima escrevo não foram escolhidas por acaso.

A Ressurreição, principalmente, está onde está por uma razão muito particular:

  • Eu não tinha idade para ler a Ressurreição quando a li.

Apesar disso, esta obra marcou-me.
Com todo o orgulho, admito que na terna idade com que o li, não decifrei metade do que estava a ler. Saltaram-me por cima – quais pulgas – mais de metade dos temas, das ideias, dos conceitos.

Contudo, a porção que entendi – a injustiça das leis – foi, não só suficiente, mas de extrema importância para o desenvolvimento do meu espírito crítico.
Pela primeira vez, eu fui posto perante a dúvida crua:

  • E se este conceito-base, que deveria ser uma verdade absoluta, não for?”

Talvez isto seja ridículo, mas para o jovem que eu era, houve um abanar dos alicerces, um despertar para a realidade indispensável para a pessoa que me tornei.


Para um extremo exactamente oposto, vou dizer algo dramático:

  • O Memorial do Convento esteve muito perto de matar o meu gosto pela leitura.

Aproveito para citar as palavras de quem o escreveu:

 “Não sou defensor do Memorial do Convento como obra de leitura integral neste nível de ensino [12º ano]. Parece-me uma obra de linguagem demasiado complexa.”

José saramago (Público)

Para mim, não só o choque linguístico da leitura do Memorial foi violento, como a análise rigorosa e inumana feita nas aulas, removeu todo e qualquer prazer que a leitura eventualmente me pudesse ter dado.

Daí – e com a ressalva que não terá sido só essa a causa – seguiu-se, praticamente, um ano inteiro em que não peguei num livro, por uma razão simples: o prazer tinha-se desvanecido.

Só o redescobri – mais uma vez por um mero acaso – ao pegar nos livros do Haruki Murakami, há mais de 5 anos, a quem devo todos os que se seguiram.


Em suma, o meu argumento é este:

  • O prazer não deve ser a consequência da análise, a análise é que deve ser consequência do prazer.

E, infelizmente, das minhas memórias de aluno, foi a ordem errada que ficou.

Se olharmos para os resultados do estudo feito, em cima, 57% das famílias têm uma relação distante com a leitura.
Daqui, extrapola-se que, na maioria dos casos, terá de ser a escola a desempenhar o importante papel de desenvolver o pensamento crítico do jovens – uma tarefa em que os livros são ferramentas indispensáveis.

Contudo, para isso – acredito eu – é necessária uma revisão do que está a ser feito, uma nova visão, uma visão moderna.

No fundo, hoje, é uma luta contra o prazer instantâneo e intuitivo da tecnologia; muito diferente do que se lutava há 50 anos.
A mesma abordagem, acredito – e os dados parecem concordar – não funcionará.

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