xxxiv

A beleza na violência

Se há algo que me aproxima da música – para lá da música, em si – são as letras.
Indiscutivelmente, parte do que ouço com recorrência é influenciado pelo prazer de descodificar bons letristas.

Photo by cottonbro on Pexels.com

O meu ano de 2020 ficou marcado, musicalmente, pela Phoebe Bridgers exactamente por essa razão. O novo álbum dela – Punisher – é dos que ganha dimensão com a repetição e, influenciada por poetas como Elliott Smith e Conor Oberst, há sempre pequenos tesouros por descobrir, nas letras.

Em 2017, no entanto, no seu primeiro álbum – Stranger in the Alps Phoebe deu luz (ou uma nova luz…) a uma música do álbum Perils from the Sea de Mark Kozelek (vocalista do Sun Kil Moon) e Jimmy LaValle.

É esta que se segue, nas duas versões:


You Missed My Heart” foi escrita com base num sonho do seu escritor, Mark Kozelek, em que, irritado com o homem das reparações, pega numa faca e esfaqueia-o.
Na resposta, o esfaqueado volta-se para Mark e diz-lhe “You missed my heart.”


Anúncios

Broke into her house, saw her sitting there

Drinking coke and whiskey in her bra and underwear.

Saw him in the kitchen, hanging up the phone

I asked him nicely once to pack his things and go.

Invadi a casa dela e vi-a sentada
A beber uísque cola em roupa interior.
Vi-o na cozinha, a desligar o telefone
pedi-lhe, gentil, que arrumasse as coisas e fosse embora.

A letra abre em primeira pessoa, com o narrador a invadir a casa de um casal, pedindo ao homem que vá embora.

Indica-nos, sem o dizer, que o narrador planeou as suas acções, já que não há surpresa em os descobrir no interior da casa.

Ao dizer “her house” e ao falar dela em primeiro, sugere ainda que a relação do narrador com ela será a relevante.

He gave her a reassuring look, said he wouldn’t leave

But I asked him one more time, this time pulled out my shiv

Struck him in the back and I pulled it out slow

And I watched him fall down, and as the morning sun rose

Ele olhou-a tranquilamente, disse que não ia embora
Mas eu pedi-lhe novamente, desta vez com uma faca na mão
Acertei-lhe nas costas e puxei lentamente
E vi-o cair, COnforme o sol nasceu.

O crime surge com uma naturalidade atípica, como uma acção semelhante a qualquer outra.

No entanto, ao referir que o narrador o esfaqueia nas costas, induz-nos a crer que o homem terá tentado fugir, sem sucesso.
Há ainda uma violência intrínseca às palavras “pulled it out slow” que nos indica que a acção do narrador é predeterminada.

Iniciam-se, além disso, os contrastes que se multiplicam pela canção – neste caso, entre a crueldade do acto e a alvorada.

He looked at me and said

“You missed my heart, you missed my heart”

(…)

Were his last words before he died

Ele olhou para mim e disse:
“Falhaste o meu coração.”
Foram as suas últimas palavras.

Surge, pela primeira vez, o título da música, que se irá repetir três vezes, com interpretações diferentes em cada.

Aqui sugere, literalmente, que a facada falhou-lhe o coração.
Também indicia que o que motivou o narrador a invadir a casa, não foi satisfeito pela morte do homem, apesar de essa acção ter sido feita conscientemente.

Anúncios

Looking out the window, up at the blue sky

Listening to her scream, listening to her cry

A feeling of relief came over my soul

I couldn’t take it any longer and I lost control

Olho pela janela, para o céu azul
Enquanto ouço o grito dela, ouço o seu choro.
um sentimento de alívio invadiu-me a alma,
E eu não aguentei mais e perdi o controlo

Novo contraste – a serenidade no exterior oposta à exposição sensorial de mágoa e desespero que ela expressa.

Surge depois uma imagem contraditória – a perda de controlo parece consequência do alívio que o preenche.
No entanto, acredito, o alívio vem após um momento de conflito interior:

Não só ele matou uma pessoa, como isso causou uma dor profunda na mulher.
Assim, o alívio parece surgir da aceitação de que terá de a matar também, dando fim ao confito interno.

I chased her up the stairs and I pinned her to the ground

(…)

I rattled off a list of all the things I missed

(…)

I said I missed her skin, when she started laughing

While I clenched down on her wrists, she said “That’s quite a list

But there’s one thing you missed

You missed my heart”

Persegui-a pelas escadas e imobilizei-a no chão
(…)
fiz-lhe uma lista de tudo o que tinha saudades
(..)
Disse-lhe que tinha saudades da pele dela, e ela começou a rir
Enquanto eu lhe prendia os pulsos, e disse:
“É uma bela lista, mas há algo que falhaste;
Falhaste o meu coração.”

A agressividade das acções do narrador é novamente contrastante – desta vez, com as suas próprias palavras, declamando uma lista de tudo o que lhe desperta saudades de um relacionamento anterior com a mulher que, agora, imobiliza no chão.

Num jogo com o duplo sentido do verbo “miss” (falhar/sentir falta de), a mulher diz-lhe que há algo que ele se esqueceu de acrescentar à lista: o coração dela.

Assim, sugere que, apesar do sentimento nobre que o narrador tem por ela, as suas acções desesperadas e violentas não lhe trarão o que ele ambiciona.

A letra segue, depois – não esclarecendo em definitivo se ele a matou ou não – numa tentativa infrutífera de fugir da polícia e, mais tarde, de se suicidar.

They dragged me off to jail (…)

Where I tried to tie a noose, but I failed and I broke loose.

Eles arrastaram-me para uma prisão (…)
Onde tentei fazer um laço, mas falhei e soltei-me.

No entanto, o narrador acaba por ser baleado por um polícia, ao tentar fugir da prisão. É levado para a enfermaria, onde diz, antes de morrer:

I said: “He missed my heart, he missed my heart.

He got me good, I knew he would”

Eu disse: “Ele falhou-me o coração, ele falhou-me o coração.
Ele acertou-me bem, eu sabia que ele iria”

Fica, assim, a declaração do intuito do narrador de ser morto, ao tentar fugir, numa busca deliberada pela libertação da culpa.

The most poetic dream came flowing like the sea

Laying there my lifeblood draining out of me

A childhood scene then, sky moon beams

Fishing with my friends sitting in the wild reeds

O sonho mais poético veio fluindo como o mar
deitado, com o meu sangue a drenar-se para fora de mim,
um cenário da minha infância:
raios da lua, a pescar com os meus amigos, nos canaviais.

O poema termina com o contraste mais intenso: a violência que a sua vida originou, fá-lo recordar, carinhosamente, dos seus tempos de infância.

Ao longo da estrofe, é visível a ligação entre o sonho (que fluiu), o sangue (a morte e culpa) e a pesca (retorno à infância) – num paralelismo entre a violência do sangue que se filtra na inocência do rio.


Há algo de introverso em conseguir ver beleza nos actos violentos – não porque os justifique, mas por nos dar uma perspectiva divergente à do instinto.

Se aceitamos a premissa que nascemos todos de igual – com o mesmo amplo e codificado espectro de sentidos – então é nosso dever, por um presente melhor, aprendermos a aceitar que o que nos diverge – assim, como o que converge – são diferenças iguais.

Anúncios
Anúncios


One thought on “xxxiv

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: