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Crónicas para dormir (III)

Na ausência de fome, ambiciono a comida.

Será isto o que é tudo o resto?

Photo by Rojan Maguyon on Pexels.com

O sabor do que me atormenta é edulcorante;
Reconheço o vício, a dependência, a obsessão – soberana ao meu ser; mas é cruel, a emancipação, e de que serve o alento?

As virtudes são concepções que justificam a fraqueza – geram-na e fecundam-na, fertilizam-na e procriam-na.
Sufoca-se a fraqueza, e sucumbe a filosofia, a ciência – e o universo quer lá saber.

A natureza não precisa de condecorações.


Adicção
Do Latim “Addicere” (entregar, consagrar, sacrificar)

*O significado inicial de Addicere seria “falar com (alguém)”.
O termo evoluiu, depois, para uma noção de escravatura.

O prazer é universal.

De um orgasmo ao contentar da fome, o núcleo accumbens não discerne: prazer é dopamina, dopamina é prazer.

O glutamato, por sua vez, está associado à aprendizagem e memória.

A dopamina interage com o glutamato, estabelecendo o sistema de aprendizagem com base em recompensas, indispensável à vida.

A exposição repetitiva traduz-se numa comunicação entre as células do núcleo accumbens com o cortéx pré-frontal (planeamento/execução de tarefas), associando-se o prazer ao desejo e procura:

  • Comer é recompensado com dopamina, criando a procura pela comida;
  • Orgasmo é compensado com dopamina, criando a procura pelo sexo;

Assim, o prazer deixa de ser um processo passivo, torna-se algo que intentamos, numa busca activa.


A natureza não nos favorece; concede-nos a vida, negligente.
Contudo, é nessa negligência que vive a maior compaixão.


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Photo by Evie Shaffer on Pexels.com

Ele deambula – para frente, para trás, para o canto comum, a velhota amistosa.

4 dias sem comer.
Ele não sente os dias, mas o aperto no estômago que-ele-não-sabe-que-é-um-estômago, desespera-o a manter o movimento.

Vê o caixote ao longe.
Ao aproximar-se, reconhece um odor saciante, e o saco de plástico a meio-termo entre cair no chão ou cair dentro do caixote e longe dele.

Move-se com cuidado – já por vezes suficientes foi sôfrego e violento, causando o saco a cair para o lado errado.

Ao chegar ao caixote, contrai as pernas traseiras, ergue o focinho, abre a mandíbula e, por um segundo, estanca – não porque hesita, mas para dar tempo ao cérebro de precisar as distâncias, a matemática intuitiva que ele desconhece.

Salta, num movimento em cadência, em que cada célula do corpo harmoniza com as restantes – o orgasmo da criação.

Agarra o saco nos dentes e, ao cair, o saco cai com ele.
Desfigura-o num segundo, e alimenta-se do seu conteúdo.

O prazer – dopamina.


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Photo by meo on Pexels.com

Na décima refeição, já não sinto as veias.
É curioso, não me lembro de comer, sequer.

Foi-me prometido dopamina.

Estou irritado. O volume da música está tão alto.
Ainda há pouco me sentei a ouvir.

Aproximo-me e baixo o volume.

Música bonita. Não me diz nada.
Ainda há pouco, chorei com ela.


Na ausência de fome, ambiciono a comida.

Photo by ThisIsEngineering on Pexels.com

Quem é que eu engano?
Ambiciono a dopamina.
De qualquer forma, de qualquer fonte.

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