xxxvi

O Cinismo, Diógenes e o que define uma boa vida

Os séculos entre a morte de Alexandre, O Grande (em 323 AEC) e a morte de Santo Agostinho de Hipona (em 430 EC) delimitam os períodos Helenístico e o Imperial.

Por entre estes sete séculos e meio, o mundo viu a ascenção do domínio romano e, subsequentemente, do Cristianismo – subordinando a filosofia quase exclusivamente à Igreja.

Ainda assim, surgiram 4 escolas filosóficas notáveis que influenciaram o mundo:

  • Cinismo;
  • Estoicismo;
  • Epicurismo;
  • Neoplatonismo.
Photo by Pixabay on Pexels.com

É de realçar as diferenças dos objectivos filosóficos destas escolas em relação ao que as antecede:

  • Até então, a procura da filosofia centrava-se na compreensão do mundo e de como viver uma vida boa (virtuosa);
  • Estas escolas, ao invés, centraram-se na obtenção da Ataraxia.
Ataraxia:
– Tranquilidade da alma, paz de espírito, ausência de perturbação;
Equanimidade: igual ânimo perante prosperidade ou adversidade;
– É obtida pela disciplina e autocontrolo dos nossos desejos e emoções, e a aceitação do males de que não temos controlo.

Esta diferença, conjectura-se que estará relacionada com os tempos incertos do período Helenístico – com os impérios de Alexandre e de Roma – que gerou uma procura pela segurança que o mundo não garantia.

De entre estas quatro, o Cinismo destaca-se por, na verdade, nem se inserir propriamente entre elas.


Anúncios

CINISMO

Chamar ao Cinismo uma escola é um erro organizativo, uma que vez que, mais do que filosofia, os cínicos partilhavam um modo de viver.

  • A VIDA DE UM CÍNICO

O cinismo rejeitava a convenção e ambições tradicionais, defendendo que a vida deveria ser vivida de acordo com a natureza.

Ou seja, não seria através da etiqueta ou da religião que se viveria uma vida boa (eudemonia – ver xvi) mas através da vida natural e simples.

Um exemplo disto, eram as vestimentas típicas dos cínicos – uma túnica esfarrapada, um bordão (cajado) e uma bolsa – assim como a ideia de que tudo o que precisamos como cama é uma túnica dobrada.

Esta noção, por sua vez, redefinia o valor e significado da vergonha para os cínicos:

Viver uma vida natural significava viver contra a ideia do decoro ser bom. Por isso, não é vergonhoso, para eles, quebrar a etiqueta (p.e. roubar comida dos templos ou urinar em público).
Pelo contrário, vergonhoso era viver contra o natural, em discordância com a alma, desejando por noções que só aparentam ser boas sem o serem (riqueza, fama).

É de notar que este modo natural de ver a vida não foi único dos cínicos – os Padres do Deserto, por exemplo (posteriores aos cínicos), refugiavam-se nos desertos, longe das corrupções das sociedades.

No entanto, um traço que distingue os cínicos dos restantes, é que estes não fugiam das tentações.
Pelo contrário, eles viviam no seio da cidade, desafiando as tentações e encorajando os outros a segui-los.
O encorajamento não era apenas através do exemplo, mas também de críticas, gozo e envergonhando-os, com o objectivo de fazê-los pensar.

  • ORIGEM

Não sem controvérsia, mas pensa-se que o fundador do cinismo terá sido Antístenes.

Busto de Antístenes

Nascido em Atenas (445365 AEC) e influenciado por Sócrates, Antístenes reconhecia na virtude, a fonte da felicidade – e a via para a virtude, passava pelo ascetismo.

Ascetismo:
– Regime de autodisciplina espiritual caracterizado pela intensa meditação, pela abstenção dos prazeres físicos e pelo controlo do corpo e das suas exigências, tendo como objetivo o aperfeiçoamento moral. (Infopédia)

Antístenes defendia que a virtude pode ser ensinada, e que enobrece quem a procura.
Enobrecer” era importante para Antístenes, já que ele era um nothos:

Nothos
– Designação dos que não tinham cidadania ateniense por nascerem de escravos, estrangeiros, prostitutas ou de pais não legalmente casados.
Anúncios
  • O CÍNICO MAIS NOTÁVEL

Não sendo o seu fundador, o cínico mais notável será, provavelmente, Diógenes de Sínope (ou Diógenes, o Cínico).

Diógenes, o Cínico

Diógenes nasceu em 412 AEC, em Sínope, e viveu quase noventa anos, até 323 AEC.
Foi banido de Sínope, em conjunto pelo seu pai, por falsificarem moedas.

Já em Atenas, Diógenes conheceu Antístenes e, numa admiração persistente, começou a segui-lo para todo o lado, apesar de Antístenes não o aceitar como aluno.

Uma das possíveis origens da designação Cinismo, vem exactamente desta relação.

Cínico
Do grego Kynikos (como um cão), de Kyon (cão)

Assim, acredita-se que a origem do nome poderá estar no facto de Diógenes seguir Antístenes como um “cão fiel”.
Outra possibilidade, no entanto, é que a origem esteja relacionada com o estilo de vida adoptado por Diógenes.

Ao conduzir as ideias cínicas ao extremo – de uma vida natural e simples e de desprezo das convenções – Diógenes ficou conhecido por viver “como um cão”.

Diz-nos a história que, quando lhe perguntaram porque lhe chamavam cão, Diógenes respondeu:

“Porque eu acaricio aqueles que me dão alguma coisa, ladro aos que não me dão nada, e mordo aos bandidos.”

Diógenes

É de realçar que, apesar de ser mencionado por outros escritores que Diógenes escreveu livros e peças de teatro, estas citações e as suas perspectivas são retiradas de obras de outros: sendo em parte – pelo menos – mais anedotas, do que reais palavras de Diógenes.

De entre os seus incríveis hábitos, destaco:

  • Descrevia-se como um “cidadão do mundo” (cosmopolitano) e como um “Sócrates enlouquecido”;
  • Comia quando tinha fome, não tendo qualquer regime de horários;

 “À pergunta sobre quando era a altura apropriada para comer, ele respondeu que, para os ricos, é quando quiserem; para os pobres, é quando podem.”

  • Comia a comida que encontrava, sem quaisquer tabus (como referi em cima, tirando comida dos sacríficios nos templos);
  • Dormia num barril;
  • Andava com uma lanterna, durante o dia;
  • Andava nu pelas ruas;
  • Urinava e defecava por todo o lado, em público;
  • Masturbava-se em público, dizendo que seria bom se fosse igualmente fácil apaziguar a fome, ao esfregar o estômago.

Ache-se o que se achar das suas ideias, é indiscutível a dedicação de Diógenes – não só em viver segundo os seus ideais, mas também na sua tentativa de mostrar às pessoas as incongruências das suas vidas e dos seus desejos.

Curiosamente, ainda hoje se recorre a estes choques culturais como um modo de desencadear desconforto nos outros – o desconforto que inicia a quebra do conformismo – quer na arte, quer na política.
Infelizmente, e se o presente nos ensina alguma coisa, é que a quebra não pressupõe sempre algo para melhor.

Termino com as palavras de Diógenes de resposta a um jovem que afirmou não ser capaz de estudar filosofia:

“Porque vives, então, se não te preocupas em viver bem?”

Ficam as diferenças do que é uma boa vida.

Anúncios
Anúncios


2 opiniões sobre “xxxvi

  1. Pingback: xli – Mil Homens

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: