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Crónicas para dormir (IV)

Deito-me.
É uma acção – similar a outras tantas – mas algo na noite afia o criativo, o quimérico: vejo cores que não existem, tenho tonturas de cinismo ao recordar o que o astro-rei ilumina, de dia; as fantasias a que o meu cérebro adere.

Photo by Laura Garcia on Pexels.com

Se estender a mão – penetrando o frio que me gela a ternura dos movimentos – sei que posso tocar em algo novo, ciente.

Hesito.
Recubro-me nos tecidos.
Falta-me a vontade de ser maior, de transcender – é o cansaço de crer; da fé no impossível que desassossega a alma.

Ficam para amanhã, essas criações divinas.


Fecho os olhos.
Não os fecho, na verdade. São as pálpebras que repousam sobre os meus globos – pele sobre córnea.

Surge-me, por entre memórias ludibriadas, o café da manhã.

Vejo-me a engoli-lo – o quente nas mucosas – em queda-livre até ao estômago.
Em 45 minutos, 99% da cafeína vai ser absorvida no meu tracto gastro-intestinal, e distribuída pela água do meu organismo.

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Eu não sei, não o entendo, não o controlo, não o defino: mas, nas horas que se seguem, ela vai afectar-me os sistemas:

  • Cardiovascular;
  • Respiratório;
  • Renal;
  • Nervoso.

Vai:

  • Antagonizar os receptores de adenosina e de benzodiazepinas;
  • Inibir a fosfodiesterase;
  • Causar a libertação de cálcio dos armazéns intracelulares.

Vai:

  • Estimular o meu coração e aumentar o fluxo de sangue coronário;
  • Relaxar o músculo liso nos pulmões e promover a dilatação bronquial;
  • Causar diurese;
  • Estimular a secreção de renina, dopamina, norepinefrina, serotonina, acetilcolina e glutamato;
  • Estimular os meus neurónios GABAérgicos.
Photo by Bianca Gonu00e7alves on Pexels.com

Mas eu não sei nada disso;
É o uso indevido, contranatura do cérebro, que me permite saber.

Sinto os mínimos que diferenciam as texturas;
O ácido e doce, amargo e salgado, nas minhas 10.000 papilas gustativas;
As violências e ternuras, dos 50 aos 50.000 Hz.

Percepciono o que é triste e o que é feliz, o que me exalta e me serena, as linguagens corporais e as mentiras compulsivas.

Mas não sinto o estômago.
Não sinto o sangue.
Não sinto as bicamadas fosfolipídicas ou os canais de potássio sensíveis ao ATP.

A dor, e a sua ausência, é tudo o que sei em absoluto sobre mim.
É a única comunicação honesta do organismo, no imperativo da sobrevivência.

Os sentidos, de resto, são teatro – entretenimento que o meu cérebro cria.
Uma distracção de sensações; ficção comunitária, embrutecedora, omnipresente; criacionismo.

Photo by Karolina Grabowska on Pexels.com

Amor ou ódio, raiva ou desejo: são cartoons.
O comando desligado da PlayStation.

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