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Estoicismo e a gestão racional das paixões


Em sequência de xxxvi (cinismo) e xxxviii (epicurismo)


Se o Epicurismo é erradamente visto como uma vida de prazer desenfreado, o Estoicismo sofre do mesmo mal, mas em sentido contrário: a imagem do Estóicos é a Apatia.

Não sendo a apatia um termo necessariamente errado para descrever – em parte – o Estoicismo, o termo, hoje, tem um significado diferente do que os estóicos usavam.

Photo by Magda Ehlers on Pexels.com

ESTOICISMO

  • ORIGEM

O fundador do Estoicismo foi Zenão de Cítio.

Por Paolo Monti – Available in the BEIC digital library and uploaded in partnership with BEIC Foundation.The image comes from the Fondo Paolo Monti, owned by BEIC and located in the Civico Archivio Fotografico of Milan., CC BY-SA 4.0

Zenão nasceu em 334 AEC, no Chipre, em Cítio (actual Lárnaca).
Começou a sua vida como mercador mas terá mudado os seus interesses para a filosofia ao ler um relato de Xenofonte (filósofo e discípulo de Sócrates) sobre Sócrates.

Reza a lenda que, de visita a Atenas, perguntou a um livreiro com que filósofo deveria aprender. O livreiro apontou para o primeiro filósofo que passou – Crates.

Crates era um cínico – partilhando a filosofia de vida de Diógenes (xxxvi).

Como veremos, há paralelismos entre o Cinismo e o Estoicismo que terão origem nos ensinamentos cínicos de Crates.
Zenão, no entanto, tinha dois impedimentos que o afastavam do Cinismo:

  • Uma compostura que o impedia de viver “sem a vergonha” dos cínicos;
  • Um forte sentido de dever cívico, o que o impedia de rejeitar a sociedade, traço realçado na sua recusa da cidadania ateniense, fiel à sua cidade natal de Cítio, onde financiou várias construções.

O Estoicismo nasce destas divergências de Zenão.

Mais tarde, após conviver com outros professores, fundou a sua própria escola na stoa poikile (colunata pintada ou Estoa) da agora de Atenas – daí derivando o nome.

Estóico
Do grego stoikos (em sentido literal – pertencente a um pórtico);
Do grego Stoa (pórtico – Stoa Poikile = o pórtico pintado)
À esquerda – as ruínas de Stoa Poikile (By Tomisti – Own work, CC BY-SA 4.0)
À direita – Reconstrução (fonte)

Zenão de Cítio morreu em 262 AEC, já septuagenário.


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  • FILOSOFIA

Ainda que numa fase mais tardia – estoicismo posterior (com Séneca, Epicteto e Marco Aurélio) – o Estoicismo tenha-se dedicado quase em exclusivo às questões éticas da vida, numa fase inicial – com Zenão de Cítio e os seus dois sucessores – para lá da ética, também de desenvolveram ensinamentos de física e lógica.

Destes, realço estas ideias defendidas pelos estóicos:

  • O que define a realidade, é a capacidade de actuar ou ser objecto de actuação (causa-e-efeito);
  • As únicas coisas que existem são os corpos físicos – ou seja, a matéria é o princípio fundamental do universo (arche), indestrutível e eterna;
Arche
– Ideia antiga da filosofia, de que tudo deriva de uma substância inicial;
– Vários filósofos pré-socráticos apostaram em diferentes substâncias: água, fogo, números.
  • Definiram ainda outro princípio fundamental – o Logos, também designado por Razão, Destino e Deus;
Logos
– Na filosofia antiga, Logos descreve um princípio que ordena o universo e regula os fenómenos que acontecem.
  • Os estóicos afirmam que o Logos organiza o universo, através de ciclos de mudanças que começam no fogo, formam os restantes elementos (água, ar e terra) e, da combinação dos elementos, surge o mundo como o conhecemos. Tudo retorna, depois, ao fogo, que reinicia o ciclo, eternamente.

Foi, no entanto, pela ética que o Estoicismo se tornou influente, por um período tão longo.

Os estóicos, tal como as escolas filosóficas que surgiram neste tempo, viam na felicidade – ou mais correctamente – na eudemonia (xvi), o objectivo, a finalidade (o telos) da vida.

E como se atinge a eudemonia?

Para isso, primeiro precisamos de distinguir aquilo que é verdadeiramente bom para nós – ou seja, o que nos beneficia independentemente das circunstâncias.
Os estóicos enunciaram quatro qualidades deste género:

  • Prudência (phronêsis);
  • Coragem (andreia);
  • Moderação (sôphrosunê);
  • Justiça/Moralidade (dikaiosunê).

De realçar que a tradução de palavras gregas para as linguagens actuais é perigosa, porque é difícil, muitas vezes, arranjar palavras que tenham a mesma dimensão das originais.


Há, no entanto, outras que são benéficas para nós, mas não o são sempre.
A estas, o estoicos designavam-nas por “indiferentes“, e incluem a Riqueza, a Saúde e a Honra (por exemplo).
Por habitualmente serem vantajosas para nós, temos tendência de as procurar.

A chave para uma vida boa e feliz está, assim, dividida em dois:

  • Escolher racionalmente as coisas indiferentes;

Podemos procurá-las, no entanto, não podemos permitir que elas se sobreponham às qualidades que são sempre boas.
Assim, mesmo que não sejamos bem-sucedidos a alcançar os indiferentes, temos na mesma as qualidades mais importantes, e seremos na mesma felizes.

  • Diferença entre a acção e a paixão;

Os estoicos diferenciavam entre acção – o que nós fazemos, portanto o que controlamos – e paixão – o que nos ocorre ou sofremos, passivamente, que inclui a dor, o medo, o desejo e o prazer, assim como o amor e a raiva.

Estas paixões eram designadas por pathē:

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Pathē
– Num sentido neutro, significa o que é feito ou acontece a alguém;
– Num sentido negativo, significa sofrimento, infortúnio.

Assim, a origem de Apatheia vem associada a estas paixões, que os estóicos defendiam que deveriamos enfrentar estoicamente, ou seja, não permitir que elas nos dominem.

Ao contrário do sentido actual de Apatia – com uma clara conotação negativa, da ausência de sentir – os estóicos compreendiam que há reacções automáticas sobre as quais não temos controlo. No entanto, isso não significa que tenhamos de sucumbir à nossa tendência para reagir emocionalmente ou de modo egoísta.

Os exemplos ajudam-nos a compreender isto:

MEDO – expectativa irracional de algo mau acontecer.
A reacção de luta-ou-fuga que temos perante um perigo é incontrolável. Podemos, no entanto, controlar racionalmente o modo como percepcionamos algo que nos assusta.

Assim, não teremos:
Medo – no sentido em que é irracional e não justificado (por exemplo, ter medo do escuro).

Mas sim:
Cautela – aversão ao que é verdadeiramente mau para nós (por exemplo, afastarmo-nos de alguém que nos ameaça)
ÂNSIA – desejo irracional por algo que, erradamente, julgamos ser bom.
Se não formos racionais com os nossos desejos, recorrendo apenas às nossas emoções como direcção, muitas vezes acabaremos em buscas desenfreadas pelas coisas indiferentes, sem considerarmos o que é realmente bom para nós.

Assim, devemos evitar:
Ânsia – no sentido em que é irracional e injustificada.

E procurar:
Intento – no sentido de ser um desejo racional, por algo que é realmente bom para nós.

Talvez um bom exemplo para isto seja a ânsia que um fumador tem de fumar, em oposição ao intento de parar de fumar.

Assim, podemos pensar nas paixões como o modo irracional de sentir. E este modo, por ser irracional, muitas vezes leva-nos à infelicidade.

É isto que o estóicos pretendiam com a Apatheia – aceitar o que está fora do nosso controlo, mas gerir racionalmente as paixões de modo a que estas não nos dominem e não nos consumam.

Isto também nos elucida sobre as qualidades que são verdadeiramente boas:

  • Prudência – o conhecimento para distinguir entre o que é bom ou mau para as nossas vidas, o que produz felicidade;
  • Coragem – capacidade de enfrentar com serenidade, o que é assustador, assim como a dor e o desconforto; dominar medos;
  • Moderação – compostura, harmonia e disciplina perante desejos e prazeres, permitindo-nos escolher com cautela;
  • Justiça/Moralidade – sermos justos não só no sentido legal, mas também nas nossas relações com os outros; igualdade social.

Termino com citações de dois estóicos (que falarei com mais detalhe depois) e uma retirada de Hamlet, que me parecem importantes:

“Lembra-te que as palavras e golpes sujos não são indignos em si; é o facto de os ajuizares assim que os tornam indignos. Quando alguém te faz ficar zangado, é o teu próprio pensamento que te zangou.

Portanto, assegura-te de que não te deixas dominar pelas tuas impressões.”

epicteto

“Sem dúvida que os problemas virão; mas não são um facto presente, e poderão nem sequer acontecer – porquê ir a correr ao seu encontro? […]

Há mais coisas que nos fazem medo do que mal […]

Exageramos, ou imaginamos, ou antecipamos as penas, desnecessariamente.”

séneca

“Nada há que seja bom ou mau, é o pensamento que o torna bom ou mau.”

William Shakespeare
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