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As raízes do riso e do humor.


Alguém abre a porta do quintal, lá em baixo, e a porta do meu quarto, por simpatia, abre também.

Não demora a que um estrondo violento indique que a voltaram a fechar.

Olho por cima do ombro – por mera constatação de um facto – e vejo a minha porta aberta, na mesma.

Levanto-me e encosto a porta, para não deixar o quente fugir, nestes dias frios.

Photo by Louis on Pexels.com


30 de Janeiro de 1962.
Aldeia de Kashasha, na actual Tanzânia.

Num internato de meninas, 3 raparigas começaram a rir – aparentemente sem razão.

Quando o internato fechou, a 18 de Março, já haviam 95 crianças “contaminadas”.

A epidemia passou depois para uma vila próxima – Nshamba – onde, entre Abril e Maio, 217 jovens apresentaram também ataques de riso descontrolados e sem aparente razão.

A epidemia de risos – como ficou conhecida – afectou 1000 pessoas, 14 escolas foram fechadas e só terminou 18 meses depois.

Os sintomas – que duraram entre algumas horas a 16 dias – não se resumiram só a ataques de riso descontrolados, mas também desmaios, problemas respiratórios, erupções cutâneas, choros e gritos.


Nothing in biology makes sense, except in the light of evolution.

Theodosius Dobzhansky

Apesar da proximidade, o humor e o riso não são necessariamente sinónimos.

Pode-se rir sem o estímulo humorística, do mesmo modo que se pode experienciar humor sem se rir.

O humor é um processo cognitivo.
O riso é uma actividade, semelhante a uma convulsão, que pode ser eliciada por estímulos como o humor, mas também por cócegas, por exemplo.

Photo by Danya Gutan on Pexels.com

A facilidade com que usamos o humor, esconde a sua complexidade – mas olhemos deste modo:

  • Mesmo uma piada simples, utiliza linguagem, teoria da mente, simbolismo, pensamento abstracto e percepção social – tudo isto, em algo tão simples, com um knock, knock.

Esta complexidade do humor, a nossa capacidade instintiva de o percepcionar, e a sua universalidade, indica-nos que se tratará de um processo influenciado pela genética.

Com isto em mente, e com o que nos diz a história, conseguimos perceber que o humor é bastante antigo:

  • Demócrito (460370 AEC) era conhecido como o “laughing philosopher“, porque se ria da estupidez dos outros;
  • Os antropologistas que estabeleceram o primeiro contacto com os aborígenes australianos identificaram conversas humorísticas entre eles e este povo teve (provavelmente) geneticamente isolado por 35 000 anos;

Este substrato genético, indica-nos também que o humor e o riso terão uma evolução adaptativa – já que rir cria um estado emocional positivo, facilita actividade social e até o cortejo – tudo consequências que são positivas e poderão levar à sua selecção evolutiva.

Photo by cottonbro on Pexels.com

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Dada a complexidade do processo cognitivo que é o humor, não há uma única teoria que o explique na plenitude – pelo menos até agora.

Curiosamente, até na Grécia Antiga este tema já era alvo de algum pensamento:

  • Platão terá discutido os efeitos do riso;
  • Sócrates teria uma obra centrada no humor – uma das que, infelizmente, se perderam.

Na maioria das teorias que têm surgido, existem 3 temas essenciais que são repetidos:

  1. O humor reflecte um conjunto de concepções incongruentes (entre os defensores desta ideia, temos nomes como Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer);
  2. O humor envolve sentimentos agressivos ou sexuais reprimidos (Freud);
  3. O humor, ao demonstrar superioridade e evitar a vergonha e perda de reputação (“saving face”), ajuda na hierarquia social (Thomas Hobbes).

Uma consideração interessante é que, dado que estas ideias reflectem-se em domínios cognitivos diferentes, não são mutuamente exclusivas.


Tragedy is when I cut my finger. Comedy is when you fall into an open manhole and die.

mel brook

Nos animais também temos alguns sinais que poderão estar associados ao humor e ao riso:

  • O “mostrar de dentes” que vários mamíferos fazem, poderá estar na raiz do sorriso, enquanto que a “boca aberta relaxada” dos primatas poderá ser a origem do riso;
Photo by Arindam Raha on Pexels.com
  • Em brincadeiras sociais, foram registados pequenos guinchos (50 kHz) em ratos jovens;
  • Algumas vocalizações caninas também demonstram paralelismos com o riso humano;
  • Todos os primatas apresentam um comportamento semelhante a riso, quando lhes são feitas cócegas;
  • Jovens chimpanzés atiram terra, batem com paus e saltam por cima dos mais velhos, como tentativas de iniciar brincadeira.
Photo by vishnudeep dixit on Pexels.com

Apesar disto, nenhum animal tem a complexa capacidade de produzir conceptualizações como nós, recorrendo à memória e combinando-a com simbolismos dinâmicos dentro de um estrutura sintática universal.
É só pensarmos na dificuldade que os primatas têm – com a linguagem gestual – de combinar dois conceitos justapostos.

FONTE – The First Joke: Exploring the Evolutionary Origins of Humor


Sento-me.
Um bater na porta e um ventar nas costas indicia-me que alguém novamente a abriu.

Volto-me e vejo o meu cão – rabo no ar, cauda aos abanos.

Olha-me nos olhos – a expressão de quem sabe o que quer e de como o colher – e, num segundo violento, ladra-me e desata a gesticular com as patas, numa aceleração desenfreada, saindo depois porta fora, correndo o corpo à frente da alma.

Rio-me.
Ele espreita-me, da porta.

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