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Sado-Maso.

Photo by JACK REDGATE on Pexels.com

Ela.
A janela.
Ela olha pela janela.
A violência a emanar-lhe do corpo, em reverberações metafísicas.

Inclina-se no parapeito e olha directamente para baixo, com meio corpo a tender para a queda-livre. A porção traseira, no entanto, afecta por uma gravidade diferente, segura o corpo dentro do quarto.

Ela.
O quarto.
Ela sente o quarto.
Sente-o – velho, desgastado, nefasto – como se fosse parte dela, uma extensão do âmago, só intercalada pela carne.

Não se voltou, mas também não precisa de o fazer para recriar a madeira envelhecida no chão, as paredes com serras húmidas habitadas pelo bestiário fúngico, os lençóis manchados pelo suor das noites quentes de Verão ou nervosas de Inverno.

O vento frio que navega lá fora, à noite entra-lhe pelas brechas – das portas, das janelas, das paredes – e rodopia ao seu redor, gozando-a por não se saber aquecer.
A culpa não é minha.” – Chora ela, por entre a carência, quando a noite vai longa e com remendos – “São as formigas. São as formigas.”

Ela.
Formigas.
Ela vê as formigas.
Força a vista – do alto do nono andar à amálgama da realidade, no fundo, no poço aberto; as formigas, aceleradas para chegar, com as suas peludas, racionais cabeças a evitarem-se umas às outras, em curvas rápidas e sucessivas.

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Os homens.” – Sussurra ela, gelo nos lábios – “Não sei quem são.”

Esforçou-se para reconhecer a cabeça dele, os caracóis que se empoleiram uns por cima dos outros, e cabritam com o movimento – ora calmo, ora sádico.

Ela.
Sádico.
Ela pensa que ele é sádico.
Mas como se foge do sadismo?

Talvez ele não seja sádico – talvez só acredite no masoquismo dela.
E daí, quem prova que ela não é?
É um mal-entendido. Um reverso apreendido. Erramos todos quando tentamos entender paradoxos.

À noite, vai dizer-lhe que o ama. Há pouco, perguntou-lhe aonde ia.
O sangue no chão de madeira envelhecida conecta tudo.
É quase belo. Só fica aquém pelas marcas que o sangue deixa.

Ela.
Sangue.
Ela inveja o sangue.
Ergue a mão, reflexo do escorrer e da estimulação sensorial, e limpa a gotícula no canto da boca.

Afasta-se da janela, volta-se para o quarto – velho, desgastado, nefasto – e, com a mesma mão meticulosa, limpa o sangue que encontra no chão.
Depois deita-se, no mesmo chão que limpou, e fecha os olhos.

É sereno – quando durmo entre mundos.” – Imagina-se a dizer – “É sereno – quando não os distingo.” – Imagina-se a dizer – “É sereno – quando não faz sentido.” – Imagina-se a dizer.

A madeira envelhecida do chão – a árvore que lhe deu origem – cresce, fraternal, sobre ela e rasga-lhe a pele indolor. As veias, as artérias, fendem-se e unem-se aos braços que a envolvem, fluindo o sangue, o floema e o xilema numa união de facto.

É sereno – quando tu te calas e eu me calo.”

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