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Homens Brandos.

Photo by Inga Seliverstova on Pexels.com

– “Houve um engano quando nasci. É certo.” – Um sorriso nasceu-lhe, automático, ao sentir a dormência nos lábios e as palavras indistintas.

– “Como é que se podiam ter engano?” – Perguntou a rapariga, surpreendendo-o por ter conseguido decifrar os seus murmúrios.

– “Acontece imensas vezes. Achas o quê? Que eles levam os miúdos todos lá para dentro e não os trocam?” – O dedo indicador praticou o seu livre-arbítrio e esticou-se na direcção da rapariga – “Tens de acordar. Não te podes deixar comer.”

– “Mas levam-nos para aonde?”

– “Para aqueles sítios onde estão os bebés todos que nasceram, berçário ou sei lá o que se chama. E depois o pai vai àquela janela grande e fica a olhar com cara de estúpido. Pudera! Nem consegue distinguir o seu filho, dos outros!”

O corpo ergueu-se, a parte superior, deixando de estar encostado às costas do sofá e aproximando-se do rosto da rapariga, sentada ao seu lado:

– “Agora diz-me lá tu: se nem o pai consegue distinguir o filho, como é que um enfermeirozito qualquer consegue? Ah? Diz-me lá!” – Caiu novamente para trás, após o esforço herculano de manter o olhar num ponto tão próximo, por mais de um segundo.

– “Mas tu é que estás a dizer que o pai não distingue o filho! Como é que sabes que isso é verdade, sequer?” – Perguntou ela, em jeito de resposta, rindo-se com uma naturalidade que, no João, incitou uma cadeia química.

– “Vais-me dizer que se eu puser cinquenta bebés nus, como vieram ao mundo, todos na mesma sala, um pai consegue distinguir o seu dos outros?” – As mãos do João atiraram-se ao ar, numa demonstração de desespero digna de uma tragédia grega – “Não me fodas, Rita.”

– “Eu sei lá, não sou mãe – muito menos pai. Mas, de qualquer forma, de certeza que nos hospitais identificam os miúdos, quando os levam para o berçário.”

“A não ser que os marcassem, como os animais, é fácil trocá-los. É só mudá-los de berço.” – Disse o João, fechando os olhos por um momento. Logo de seguida, no entanto, percepções centrífugas obrigaram-no a voltar à realidade, antes que caísse na inconsciência.

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 – “E porque haveriam de fazer isso?”

– “Marcá-los ou mudá-los de berço?” – Um sorriso expôs-lhe a malícia.

– “Tu tens mesmo de me preencher alguma falha emocional, porque juro-te que não consigo entender o que gosto em ti.”

– “Não sejas rude, o álcool faz-me falar. Sabes bem que calado sou um poeta.” – Comentou ele, para uma gargalhada doce, que lhe aqueceu o sangue – “Para lá disso, vim contigo à festinha da tua amiguinha, não te podes queixar.”

– “Só vieste beber.” – Respondeu a Rita, aproximando-se, num arrastar belo que lhe impeliu o perfume cítrico, e encostou a cabeça no peito dele.

– “Não interessa.” – Os braços, livres idem, envolveram-na – “Isso só me condiciona a vir mais vezes.”

– “És um cãozinho, é?” – Perguntou ela, numa melodia luminosa.

– “Por ti, sim.” – Respondeu ele, assustando-se com a fragilidade de algo honesto – “Onde é que está toda a gente?” – As palavras nasceram-lhe, apressadas.

– “Não sei. Ouves alguma coisa?” – Cresceu um silêncio, que lhes permitiu ouvir explosões – exíguas – em ecos distantes – “Devem estar a ver o fogo de artifício.”

– “Ah, pois é. Quem é que faz anos no ano novo?” – Perguntou ele, apercebendo-se de nunca ter conhecido ninguém que partilhasse o nascimento com o do próprio ano.

Ficaram no silêncio – agradável e sedutor – e as pálpebras foram pesando, os corpos contraindo-se um no outro, alimentando-se do calor mútuo.

Photo by Skylar Kang on Pexels.com

O João sentiu-a a dormir, encostada a si, pela respiração suave e repetitiva. Reconheceu um carinho restrito àquele momento, um anteceder da saudade com que o recordará, quando acabar.

– “É inevitável, não é?”

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