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Sócrates (parte I) – Vida e Filosofia


(PARTE II)


Mais do que um homem, Sócrates é um mito – curiosamente, não por desejo próprio, mas porque foi de tal modo influente, que muitos foram os que o idolatraram, replicaram e interpretaram.

Por entre descrições e adorações – o que nos chegou, foi uma amálgama de versões diferentes do mesmo homem.

Estátua de Sócrates (Foto por C messier – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0)

A questão socrática origina-se exactamente desta amálgama:

  • Quem era o verdadeiro Sócrates (Sócrates histórico)?

A verdade, é que dificilmente alguma vez poderemos afirmar com certeza onde termina o homem e começa o mito.


São três as principais fontes usadas para estudar Sócrates:

  • Aristófanes – o único, dos que temos registos, que conheceu Sócrates quando ele era jovem. Foi um dramaturgo grego, escritor que várias peças, uma das quais – As Nuvens – onde Sócrates é caricaturizado;
  • Xenofonte – historiador, filósofo e general grego. Um dos discípulos de Sócrates;
  • Platão – um dos principais pensadores da história da filosofia e também discípulo de Sócrates. É a principal fonte.
Aristófanes
Xenofonte
Platão

Porque é que Platão é a principal fonte?

Em muitas obras da extensa bibliografia que lhe é atribuída, Platão escreveu na forma de diálogos, onde Sócrates surge como uma personagem.
Considera-se que os primeiros diálogos de Platão são representativos do Sócrates histórico. Só depois, Platão começa a usar Sócrates como um dispositivo literário para expor as suas próprias perspectivas.


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VIDA E ENVOLVENTE HISTÓRICA

Sócrates nasceu em Atenas, por volta de 470 AEC, filho de um pedreiro – Sofronisco – e de uma parteira – Fainarete.

Curiosamente, mais tarde, Sócrates compara o seu trabalho filósofico com o trabalho da sua mãe, afirmando que ele era um parteiro que ajudava no nascimento da Verdade ou Conhecimento.

A sua data de nascimento é relevante, pois indica-nos um aspecto importante da vida de Sócrates – este cresceu e viveu a sua juventude na Atenas de Péricles:


Reconstrução da Acrópole e do Areópago em Atenas, por Leo von Klenze (1846)


Após a vitória do mundo grego (que incluia várias cidades-estado gregas) na guerra contra a Pérsia, Péricles usou as contribuições das outras cidades-estado para reconstruir Atenas – arrasada pelas invasões persas.

Para lá da construção de muitas das estruturas que ainda hoje resistem da Acrópole de Atenas, também houve um grande financiamento para as artes e literatura, que elevaram Atenas como o ponto alto da Antiguidade clássica, enquanto centro educacional e cultural.

Isto traduziu-se num período de grande abertura para novas formas de pensar e questionar, quer sobre o mundo, quer sobre o ser humano – que certamente influenciaram Sócrates.


Aos 18 anos, tornou-se num cidadão adulto de Atenas, o que, para lá das possibilidades de ter um papel mais activo na democracia, também lhe trouxe obrigações – uma das quais, o treino obrigatório na milícia ateniense.

Soldado grego em combate (By ChrisO – Own work, CC BY-SA 3.0)

No tempo que passava em Atenas, Sócrates participava nos eventos culturais e procurava discutir – quer entre amigos, quer com pessoas desconhecidas – sobre os temas que lhe interessavam, nomeadamente o Conhecimento.

Casou com Xantipa, com quem terá tido 3 filhos, ainda que relatos posteriores associem 2 dos filhos a outra mulher (Mirto – que, nos mesmos relatos, é descrita como a primeira esposa de Sócrates).

Xantipa esvazia o penico sobre Sócrates (supostamente, após este ter passado muito tempo sem ir a casa)

Sócrates manteve o serviço militar após o treino obrigatório, eventualmente lutando na longa guerra entre Atenas e Esparta, conhecida como a Guerra do Peloponeso.


A guerra do Peloponeso opôs Atenas (centro político e civilizacional do século V AEC) e Esparta (cidade-estado com costumes austeros) em três períodos: 431421, 415413 e 412404 AEC.

Culminou (em 404 AEC) com a derrota de Atenas, a queda da democracia e a instauração de um regime oligárquico interino – designado como os Trinta Tiranos.

Destruição das Grandes Muralhas (ou Muros) que ligavam Atenas até ao porto, garantindo acesso ao mar, mesmo se a cidade estive cercada.

Apesar de curta duração – o regime durou apenas 8 meses – este período ficou marcado pelo assassinato e exílio de centenas de atenienses (alguns dos relatos apontam para números tão elevados como 1500 pessoas executadas sem julgamento e a morte de 5% da população ateniense).

Eventualmente, o regime foi derrubado por forças rebeldes, e a democracia foi restabelecida em 403 AEC.
Contudo, a moral dos atenienses ficou muito afectada o que, pelo menos em parte, contribuiu para o trágico destino de Sócrates.


Depois de servir na guerra (a sua última batalha terá sido em 422 AEC), Sócrates dedicou-se ao que considerava ser a sua verdadeira vocação: a busca pelo conhecimento.

A sua reputação como filósofo foi crescendo, ao longo dos anos.

É descrito que gostava de andar pelas ruas, a abordar e questionar as pessoas que encontrava, aplicando o seu Método Socrático para despertá-la para a sua própria ignorância – não numa tentativa de as humilhar (ainda que fosse isso que acontecia muitas vezes), mas para as ajudar a compreender a importância do conhecimento.

Sócrates morreu em 399 AEC, após ser julgado e condenado à morte, em Atenas.

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FILOSOFIA

Talvez um bom modo de descrever o pensamento de Sócrates seja através de um dos argumentos que ele usa no seu próprio julgamento.

Sócrates conta que um amigo seu perguntou a uma sacerdotisa quem era o homem mais sábio de entre os mortais, ao que ela respondeu “Sócrates é o mais sábio.”

Ao descobrir isto, Sócrates ficou espantado, pois ele até se considerava um ignorante.
De modo a descobrir a verdade, Sócrates falou com várias pessoas – políticos, poetas, artesãos – e questionou-os sobre diferentes tópicos como a Beleza e a Coragem.

Nestas conversas – e ao reconhecer as falácias em muito do que os outros diziam – Sócrates compreendeu o que a sacerdotisa queria dizer:
Ele era o mais sábio pois, ao contrário dos outros, Sócrates estava consciente da sua própria ignorância.

Daí, surge a famosa citação:

Só sei que nada sei.

Esta expressão simplifica e resume Sócrates.


Em jovem, quando ouvia os filósofos a falar sobre a natureza da realidade e do universo, Sócrates sentia que ficava sempre uma pergunta por responder, uma que o atormentava:

  • Como viver?

Por toda a vida, foi este o seu interesse: descobrir, de certo modo, como é que se vive uma boa vida.

Para Sócrates – e apesar de reconhecer outras virtudes importantes, como a coragem, a justiça e a temperança – o propósito, a virtude em si, era o conhecimento.

E, por isso, por ver nestas virtudes o verdadeiro sentido ou propósito da vida, Sócrates viveu consistente com estes princípios:

Se, por um lado, é verdade que:

  • Era indiferente à roupa, à higiene pessoal e, em geral, às coisas mundanas;
  • Viveu uma vida simples e modesta (pobre ou não, é palco para discussões);
  • Incomodava as pessoas na rua, exigindo-lhe justificações para as suas opiniões;

Também é verdade que:

  • Nas batalhas onde lutou, na milícia ateniense, ficou conhecido pela sua coragem, surgindo até a história de ter salvo Alcibíades – sobrinho de Péricles – ao colocar-se à frente dele e protegê-lo, quando este caiu ferido;
  • Aquando do regime dos Trinta Tiranos, foi-lhe exigido que fosse buscar um antigo general democrático – Leon – para que este fosse executado. Sócrates recusou-se, pondo a sua vida em risco, e só não acabou ele mesmo executado porque, entretanto, as forças democráticas restabeleceram Atenas.
Sócrates a defender Alcibíades (Pyotr Basin) – Fonte

O exemplo máximo desta busca por viver correctamente, no entanto, surge com a virtude que ele considerava mais importante e, de certo modo, a catalisadora de tudo o resto – o Conhecimento.

Sócrates não procurava só o conhecimento para si – pelo contrário, como referi antes, ele passava os seus dias em Atenas a incentivar o despertar dos seus concidadãos para o conhecimento, através daquilo a que hoje se designa como o Método Socrático.

Eu não posso ensinar nada a ninguém, apenas posso fazê-los pensar.

(de realçar que estas citações, ainda que ajudem a compreender sócrates, dificilmente podem comprovar-se que sejam dele)

O Método Socrático (também designado Elenchus) consiste, de um modo simplificado, em levar o interlocutor a compreender a sua própria ignorância.
Prosseguia do seguinte modo:

  • Sócrates pedia ao interlocutor uma definição de um conceito ético, como Coragem;
  • O interlocutor tentava definir esse conceito;
  • Sócrates demonstrava que a definição do interloculor não funcionava, realçando as inconsistências;
  • O processo repetia-se, até o interlocutor concluir que não sabia a verdadeira natureza de Coragem (neste exemplo).

O método socrático descrito em maior detalhe

Para Sócrates, o primeiro passo para o conhecimento era o reconhecimento da ignorância, pois só a partir daí se podia construir o conhecimento.

Num dos diálogos de Platão, após uma discussão entre Sócrates e Ménon, Ménon diz:

És como uma raia, puseste-me os lábios dormentes, e a língua; não sei o que dizer!

Ao que Sócrates responde:

Óptimo! Agora que sabes que não sabes do que falas, podemos começar a progredir!


A influência de Sócrates foi clara nos séculos que se seguiram e nas escolas filosóficas que surgiram:

  • O Cinismo inspirou-se na pobreza e indiferença às coisas mundanas de Sócrates;
  • A dedicação de Sócrates ao pensamento e a fidelidade aos seus princípios, foi o que inspirou os estoicos;
  • A defesa de Sócrates de uma vida dedicada ao conhecimento inspirou as ideias de Aristóteles;
  • Sócrates é o ponto de partida da incrível obra filosófica que Platão desenvolveu.

(PARTE II)


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