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Alberto Caeiro à chuva.

Click.
O som que o movimento da chave a trancar a porta cria.
Segrega, em definitivo, o que existe para lá do que existe até aqui.

Photo by George Becker on Pexels.com

Há noites em que o tempo rege-se fora das suas próprias regras.
Não quebra nenhuma lei do universo, nem o continuum espaço-tempo, nem o equilíbrio por onde tudo se rege, porque – na verdade – ninguém perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem.

Depois de trancar a porta com um click, ele ergue o braço e confirma no pulso: 00:53.

Pondera as opções: a certa, de “ir dormir“, e todas as outras, que se englobam em “não ir dormir“.
Ainda pôs o pé no primeiro degrau das escadas; escadas que dão acesso – não ao andar de cima, como seria de esperar – mas ao andar de baixo, já que o quarto é na cave.
Contudo, a vontade fugiu-lhe mal se confrontou com a opção, e o sono desatou a correr ainda ele estava na porta.

É sempre assim.” – Comentou ele – “Quando preciso que venhas, já fugiste. Quando não te quero, já aqui estás.”

Arrastou-se até à cozinha, abriu o frigorífico.
Numa análise detalhada, encontra-se o essencial – o que serve para almoços e jantares – mas nada que funcione como um snack elegante e compreensível de meia-noite.

Seguiu-se um debate interno, confrontando-se a vontade de satisfazer o bichinho, com a preguiça de cozinhar e a preguiça de sujar e a preguiça de lavar.
Ganhou o desejo, ainda que ele não compreenda as vantagens.

Agarrou em dois ovos, meteu a frigideira ao lume, fio de azeite.
Os ovos quebram, as claras e as gemas caem numa taça de alumínio – em tudo semelhante ao que um cão usaria para comer. Um garfo de inox apresenta-se – educado – mas logo depois dilacera as coitadas, trazendo as tripas para fora e mesclando tudo numa só solução.

Com a mão, ele sobrevoa a frigideira, sentindo o calor emanado, e despeja-lhe a taça, para atroz agonia do azeite.

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Cinco minutos depois, está sentado no quintal – prato numa mão, garfo na outra – e mastiga as almofadas amarelas disformes.

Estas noites de Verão.” – Ironizou, e a natureza, enamorada com a verdade, envia-lhe uma gota enviesada, que se escapa ao toldo e acerta-lhe mesmo no topo do crânio, no centro do redemoinho do cabelo – “Tens razão, não devia gozar contigo. Sabes quem é o Alberto Caeiro? Deixa-me dedicar-te um poema:

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Mal o último a deu lugar ao ponto final, a chuva enraiveceu-se. A gota elementar – qual mártir – instigou tantas outras que, em voos kamikaze, dilaceraram-no num contraste frio-quente.

Não gostaste?” – Perguntou ele, os dentes cerrados e indecifráveis.

Agarrou o prato como num jogo do disco e, num impulso vil e degradante, apontou para a parede, do outro lado do quintal. Falhou-a, no entanto, ao fazer o prato voar demasiado alto, pelo que se estatelou no quintal do vizinho, num grito segregante.

Ergueu-se num salto e correu, em dois passos, para o centro do quintal. Começou a rir-se – qual criança – e a girar sobre si mesmo, acelerando a cada volta.

Tornaram-se hilariantes – os fios da realidade a arrastarem-se no campo de visão – e as gargalhadas ganharam ímpeto e volume, raiva e acidez, sangue e negação.

Terminou numa queda suprema, com a perna esquerda a dobrar-se em ângulos e sentidos que não deveria.
No chão molhado, encharcado do corpo à alma, envolveu-se num feto e sussurrou:

Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.


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