lviii

Aquém.

Photo by Daria Shevtsova on Pexels.com

Ele segue.
O caminho, no entanto, é sem forma, ausente de direitas ou esquerdas, um matagal silvestre.
Um carro, um rosto, em tempo nenhum, anunciam-se e despedem-se. Por vezes, pensa ele, é fácil esquecer que os carros, os rostos também são homens.


Ele segue.
Há uma voz – ténue como a infância – que se ouve por entre os projectos da natureza. Ele não a esperava, mas há algo familiar nas melodias.
Não é sua, é certo;
A sua era aguda e quebrável, um ladrar raivoso da frágil exigência de viver;
A que ouve é ausente de sentidos, um terreno novo, um rio que secou e, dos peixes mortos – do terrível genocídio – as entranhas dão nova vida, novas formas de viver.


Ele segue.
Reconhece o caminho agora – por entre mais duas ou três árvores chegará à casa onde vivem os monstros.
Os monstrinhos.
Já não assustam: perderam os dentes afiados, os olhares violentos, as garras assassinas, envelheceram para peluches domesticados que o abraçam ao chegar e lhe perguntam pelo dia.

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Ele pára.
A casa está lá ao longe, consegue ver a chaminé daqui. O fumo cinzento eleva-se, em nuvens promissoras de calor, no interior, e os pássaros atravessam-nas sem hesitar, crentes que do outro lado do fumo cinzento, haverá o mesmo céu azul.
Os pássaros não o vêm e – ao não vê-lo – rasgam a atmosfera que o sobrepõe. Um gesto seu e termina. Um gesto seu e dá-se o caos.


Mas ele pára.
Senta-se no verde húmido que lhe dança por entre os dedos; e ele gosta tanto da dança, dos pequenos movimentos que o apaixonam pelo mundo.
Senta-se e, de olhos fechados, mãos no solo, expande o calor do seu cerne para aquilo que o envolve – a natureza que não tem nome, ou casa, ou raiva, ou amor, somente a expressão pura de todas as pequenas coisas.


Ele pára.
Não é noite, não é dia – é o tempo que resiste surreal: um caminho sem forma, uma casa de monstros, pássaros crentes e um verde húmido penetrante.
O mundo respira e ele respira também. Eleva-se a terra, escoam-se os mares – por um momento só – depois o chão retorna, os mares invadem.

Tudo fica sempre aquém do mundo.

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Photo by Chris Brenner on Pexels.com
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