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Irreversibilidade
Uma odisseia à Lua.


ENVOLVENTE HISTÓRICA

Pré-primária.
4 anos.


O DIA ANTES

Disseram-nos que íamos à Lua.
Intenções inocentes, acredito, mas que naturalmente, geraram euforia em mim.

Photo by Pixabay on Pexels.com

Num apanhado geral, recordei o que sabia sobre a Lua: grande, longe, possibilidades alienígenas e vagas noções da presença de queijo que não me faziam sentido.

Num êxtase confuso, sonhei com ela, nessa noite:

A superfície árida;
As crateras profundas;
A vasta ausência;
A distância de casa;
A impossibilidade do retorno.


MANHÃ DA VIAGEM

Recordo, com exuberância, a aflição.
Lembro-me do pânico no meu jovem, vibrante corpo; o esforço desgastado para não chorar.

Mas como não temer uma viagem à lua?

O esforço foi frutífero ao pequeno-almoço, num balançar ritmado de deglutição: pão, soluço, pão, soluço.

Deixou de ser depois.
Ao sair de casa, quando o pé deu o primeiro passo fora da protecção das paredes, as barreiras quebraram, os alicerces ruíram e o desespero chegou.
Qual derrame, todo o conter viu-se livre de uma vez.

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Era uma caminhada de 15 minutos – os minutos que separavam a casa da pré-primária – e por 15 minutos exigi auxílio, gritei que não, que nunca, que por favor, que qualquer outra coisa – mas sem efeito, havia uma determinação em levar-me que alimentava o meu desalento, a agonia de não voltar.

Eles não entendiam:

Eu não quero ir à lua.

E se não eram exactamente as palavras que o diziam, o meu corpo expressava-o, numa revolta impetuosa que envergonharia qualquer banda de death metal.

Como é que vamos para lá?
Onde é que dormiremos?
E comida? Há comida na lua?

A tempestade ziguezagueava no meu cérebro virgem, sincero, franco, transportando as perguntas para todos os cantos, todos os núcleos das células nervosas, afectando assim todas as funções básicas do meu organismo.

No centro de tudo, uma certeza absoluta:

Se for, não há volta a dar.
Ficarei na Lua para sempre.

Photo by Min An on Pexels.com

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Acabei por não ir à lua.
Afinal, era só uma exposição.

Foi, no entanto, o meu primeiro confronto com o irreversível.

Ninguém teme a morte;
ou a mágoa;
ou a ausência.

Tememos as previsões.

A morte é desconhecida, como o era o fim do mundo, os “para-lá” dos limites da Terra;
Mas prevemos as formas de morrer, o que há depois da morte; do mesmo modo que prevíamos monstros, cascatas infinitas e um sem-fim de tormentas.

Que é a:

  • Religião – vida após a morte, renascimento, salvação;
  • Filosofia – compreensão pelo raciocínio, percepção, conhecimento;

Se não duas formas diferentes de olhar para a mesma questão:

Como se aceita a irreversibilidade, quando somos conscientes dela?


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