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Visões estóicas (II)

Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.

platão
Photo by Daniel Fawcett on Pexels.com

Pondera:

Uma roda.
Os músculos contraem e, num único movimento festivo, liberta-se toda a tensão, todo o acumular que se deu até ao momento.

A roda gira.
As voltas repetem-se sucessivas, gradualmente menos eficazes a combater a natureza que, qual água mole em pedra dura, leva-as à exaustão.

A roda pára.
Uma pequena seta aponta, num gesto eterno até então, ditando qual das parcelas é a que devemos considerar.

O ciclo repete-se.


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Ignoremos as restantes forças em jogo quando a roda gira e, vagarosa, vai travando até parar.
Consideremos a fortuna como a aleatoriedade-motriz que coordena todo o ciclo.

O que é que eu sei, realmente?
O que posso prever?


As portas abrem-se e, desfasado do exterior, uma massa de calor intenso penetra-me o corpo.

As grandes letras do edifício soletram C A S I N O, olhei-as quando entrei, mas não precisava para saber onde estou.
Chegariam os tons enegrecidos do que me envolve, as reverberações tilintantes dos sininhos que já não são sininhos mas programação.

Num teatro curioso, a impregnação do ambiente transfigura-se em leves essências que se camuflam em simbiose:
– A primeira camada, a da superfície, é a esperança – que se auto-explica num sítio destes – congrega em si várias fontes: capital, líbido, património, família, saúde;
– A segunda, a do meio, é a exaltação – em parte, evoluindo da esperança, no um dos muitos que a vê justificada. A outra parte, no entanto, origina-se do oposto, dos de quem a fortuna se ri;
– A terceira, a do nefasto âmago, é a exasperação – a mais perigosa, pois envenena em silêncio, num exercício conglomerado, até à soberania.

Olho à volta.
Percorro o que me rodeia com o mesmo fascínio que me despertaria na savana, numa noite lunar, com os brilhos felinos a quebrar a monotonia da penumbra.

Quem são estes homens?
O que procuram eles aqui, neste musgo que cresce da terra morta, consumindo o suor e o vómito dos corpos desesperados a cair?


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A fortuna é uma roda.

Photo by Cris Feliciano on Pexels.com

Ao baseares a felicidade no que ela te oferece, predispões-te a todas as possibilidades, a todos os momentos:
– Podes não apanhar trânsito.
– Podes deixar-te dormir.
– Podes ganhar a lotaria.
– Podes morrer atropelado.

A cada momento, um novo movimento – um novo ciclo da roda – começa e outro termina, destinando-te uma nova experiência a cada um destes momentos.
Inalterada, a fortuna dá-se – boa ou má – e segue sempre, ignorando consequências, como um planeta em órbita.

Se todas as possibilidades existem, então o teu bem-estar estará sempre depende, mutando a cada momento se a fortuna assim o ditar.

Mas o que me obriga?
– Nada. Nada te obriga, apenas a crença ideológica que tens de o fazer.

Se não arriscas todo o teu dinheiro no casino, porque hás-de arriscar todo o teu bem-estar na fortuna?

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Que alternativa tenho, então?
– Concentrares o teu bem-estar no seguro, atingível e controlável – as tuas virtudes.

Conhecimento, temperança, justiça, prudência – és tu quem define os teus valores, as tuas virtudes, a sua corrupção só ocorre com permissão tua, nunca por imposição externa.

Ao baseares o teu bem-estar nas tuas virtudes, libertas-te da fortuna, não sucumbes ao que a roda te traga, mas sim ao teu esforço para viver segundo os teus princípios.

Se for boa fortuna que pára a roda, é um acréscimo ao teu bem-estar.
Se for má fortuna, é indiferente.

A vida segue, negligente.
Depende de ti, ser consequência ou independente dela.


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