lxviii

brevidades (II)


I

brevidades.
momentos em que tropeço.

não esperes por mim.

são incêndios, estes momentos,
queimam quem aguarda.

são rasgos universais em que sinto
o vibrar da terra.
os silêncios.
as amnésias.

eu sei.
não penses que não.
a noite vem sempre tão tarde,
só atrasa mais o dia novo,
o nascer de um novo sol.

mas não faz mal.

ninguém chora em silêncio.
há tanto som em cada gesto.



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II

segues cantando
nesses teus jeitos bonitos.
sabe deus que te deu.
amanhã, cantas, seremos malditos.

fizeste-me rimar.
diabo nos dedos limita-me os sentidos.

são espasmos,
nervosos cuspidos,
é um bater cardíaco
fora de sítio.

já nem sei se cantas para mim.
é cansativo ser espectador
quando tenho de ouvir.
preferia dormir até te calares.

mas segues cantando
nos teus jeitos bonitos.

és fogo, decerto.
tão bom de ver.
tão mau de morrer.

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III

forretas de merda.
(desculpem-me a indecência.)

lebres em corrida,
invertem sentidos conforme o perigo,
se frontal recuam, se detrás avançam,
esquerda direita esquerda direita.

é tudo tão fútil.

amor e sexo.
neste mundo violento,
só se apreciam as palavras bonitas.

todos querem gozar,
ninguém quer ser gozado.


IV

abismo.
por vezes começamos pelos fins,
e daí em retaguarda,
porque não há quem aprecie penhascos
sem temer cair.

abismo.
vemos o fundo e fugimos de ti.
e há neste mundo tanto pior
do que fugir do fim.


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