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Excertos d’A Jangada de Pedra


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(…) cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem, e os olhos veem o que querem, os olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravilhas, ainda que sejam de pedra, e as altas proas, ainda que sejam de ilusão.

Recordo um sonho. É, talvez, dos poucos que ficaram.

Num Setembro choroso, numa grande cidade, um homem corre pelas ruas – vazias de gente, de movimento – o guarda-chuva ficou em casa, não chovia quando ele saiu.

O homem corre mas não evita o choro de Setembro, esse que cai indiferente, e quanto mais corre, mais se perde – o homem – mais desconhece o caminho.

Termina, não o sonho, mas o homem, quando suspende o movimento. Ele não sabe, mas suspendeu também o juízo – a Epoché, como lhe chamam – e assim fica, suspenso, entre certezas.

Cai de joelhos, ergue o rosto e serenamente sorri – não, não sorri, o delicado ponto de união dos seus lábios, onde a pele e a mucosa se enlaçam, vibra, ininterrupto, como um homem que chora ou como um homem que ri.

Qual deles, nunca soube, o choro de Setembro tudo camufla.

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(…) aqui o que se ouve é o silêncio, ninguém deveria morrer antes de conhecê-lo, o silêncio, ouviste-o, podes ir, já sabes como é.

Subitamente, tudo se cala – Setembro, o seu choro; o homem, a sua expressão.
Ninguém se apercebe, parece: o choro ainda cai e o homem ainda se expressa – apenas o fazem em absoluto silêncio.

Para mim, no entanto, há algo perturbador na imagem.
Não consigo refugiar-me da aflição de não o ouvir – o homem e o choro – como um sentido que me falta, uma disformidade. Enche-me um pânico ilógico, uma vontade de desertar, de correr para longe ou de encontro – uma irreversibilidade.

O som volta, suavemente, de baixo para cima, como uma mão vagarosa a girar o botão do volume – e o pânico foge-se-me, já só o vejo lá ao longe, nas lágrimas de Setembro.

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(…) e isto não significa que eles sejam supremamente corajosos, apenas que neste momento da vida acederam à compreensão de que a coragem e o medo são simplesmente os dois pratos oscilantes de uma balança cujo fiel se mantém fixo, paralisado pelo espanto da inútil invenção das emoções e sentimentos.

O homem ergue-se, enfim.
Na expressão dele, pouco ou nada sobra do que ainda há pouco vi – talvez não seja o mesmo homem, afinal, certamente não são as mesmas lágrimas que sobre ele caem e, ainda assim, diríamos que é o mesmo choro de Setembro.

Caminha – o homem – passos modestos, dos que compreendem distâncias, dos que compreendem destinos.
Não demora a chegar a casa, não demora a entrar, a despir-se e a entrar na banheira, onde aquece o corpo, e o corpo compreende que está bem, que está seguro, e relaxa os músculos, liberta os calmantes, respira sereno.

O homem recorda-se, num segundo muito veloz, que ontem se deu o mesmo, e no dia anterior também. Empiricamente, sabe que esta noite chorara na cama, na escuridão – que é outra forma de ter um sentido em falta – e que só adormecera quando todas as lágrimas secarem, parte na almofada, parte ainda no seu rosto.

Eu também o sei, mas acho que o soube primeiro – talvez daí a amargura de vê-lo relaxar.
Com este pensamento, sei que vou acordar, e assim se dá – volto ao mundo, ao consciente, ao que é realmente.

(…) mas terá sido alucinação sua, das tantas que nos acontecem quando queremos muito uma coisa, o sábio corpo apieda-se de nós, simula em si próprio a satisfação dos desejos, o sonho é isso mesmo, que é que julgam, Se assim não fosse digam-me cá como seríamos capazes de aturar esta insatisfatória vida.


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