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Certamente, as divindades divertem-se connosco.


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O dia chega, é simpático em nascer tão cedo.

Digo-o, mas aproxima-se mais de um derrame do que de uma constatação: não foi em mim que ele – o dia – pensou quando se decidiu a nascer, mas não deixa de ser curioso a inevitabilidade em que me vejo, ao sentir esta crença de que é para mim que ele surge.

É fácil esquecer que somos nós que vemos o mundo, enquanto que o mundo não vê ninguém.


Quando era miúdo, joguei hóquei em patins.

Era uma competição amigável, mas nós, enquanto equipa nova num escalão mais velho, não tínhamos muita esperança de arrecadar vitórias.

Dessa falta de esperança à realidade, no entanto, houve um certo desfasamento:

Não haverão muitas pessoas que, consecutivamente, tenham sofrido as derrotas que nós sofremos.

Aqui se fala, não de derrotas tácticas ou de pequenas decisões nos últimos segundos que definiram o jogo: fala-se de uma temporada inteira sem golos, da nossa parte, e um oceano, um maremoto, a entrar nas nossas balizas.

Muitos jogos terminaram com o nosso 0 – sempre presente – acompanhado por mais de uma dezena ao seu lado.

No entanto, a reviravolta do destino veio – qual Hollywood – no último jogo da época:

Jogo em casa; familiares e amigos na plateia; mais de uma dezena – 12, para ser exacto – momentos em que a bola entrou na nossa baliza; 0 – zero – momentos em que a bola entrou na deles.

Uma falta marcada a nosso favor, no último quadrante do jogo, ofereceu-nos uma oportunidade que, recorrendo às nossas capacidades, nunca teríamos:

O jogador agarra o stick com confiança – ilógica, alguns diriam – aproxima-se da bola, olha o árbitro que sinaliza “vai lá tentar, pode ser que seja desta.”.
O jogador avança – bola em frente, patins no chão, rodas a mover o corpo esperançoso – ergue o stick em ângulo fixo na mão que o segura, desce veloz, a bola voa e acontece.

A plateia explode.
Se alguém passasse lá fora sem saber do histórico momento no interior, pensaria que se tinha vencido a guerra.

Da euforia, ficou-me o momento em que passei os olhos pelo ecrã a mostrar o resultado – 12-1 – e o pensamento de que, certamente, as divindades divertem-se connosco.

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