lxxviii

Crónicas para dormir (XII):
Pertença e traduções.


Anúncios

Não pertenço.
E não é por medo que me ausento.

É sempre por me ver na margem do mundo – esse hipotético declínio – onde o som chega abafado, as visões desfocadas e o tempo, vagaroso, nunca vem quando é suposto, atrasando o passo para me ver de longe – humores que não entendo ou partilho.

Tropeço em mim mesmo quando me deito, por vezes já deitado. E no surrealismo de me ver cair, quando já estou caído, encontro uma urgência que me afaga o peito.
Breves acelerações.


Anúncios
Anúncios

Agarra-me.
A queda é longa, o chão é certo, mas é tão bom cair ciente que há mais do que os meus membros.

Se o mundo escurecesse, tornasse os meus olhos obsoletos, e as décadas corressem e eu esquecesse; ainda assim, não me vendo, saberia que sou, que existo, que algo há que se identifica a si mesmo, que se apresenta.

Talvez não se entenda, os significados dúbios das palavras.
Afinal, nada perdura o seu intuito, após gerações de traduções, de acrescentos e recuos.

Mas se eu existo sem luz, sem noção de existência; se eu existo num absoluto que é independente; então prende-me seguro.

Porque os dias cegam-nos mais do que a noite, e eu perco o meu centro, desregulo o meu cérebro, e se não me agarras, se não me manténs, cada parte de mim navegará pelo vento, indiferente entre si.

E é tão bom ser inteiro.

Solidão é o ciúme que exalta o divórcio.
Se és só, não és inteiro.


Anúncios
Anúncios

As noites, desconfio, não convivem com os monstros, não os convidam para dormir ocultando-os nas sombras.

Afinal, ao escrever estas palavras, não pondero em corpos desfigurados, nessas preguiças engenhosas, nesses temores recreativos;
São os desleixos que invoco, os sintéticos relvados que piso, sorridente, julgando pisar outros mais verdes, mais inssurectos.

É o estado de natureza que ganha peso em mim.
E quando dou por isso, quando a consciência se exterioriza, já o mundo que me rodeia se pinta, satisfeito, desses jeitos violentos.

Mas amanhã nasce o sol, amanhã a terra seca, o homem ergue o corpo e trabalha, e eu sei, num saber incongruente, que nada do que penso alguma vez se resumirá nas palavras que escrevo.


Anúncios
Anúncios


Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: