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Grilhões do corpo.

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E “purificação” não vem a ser, precisamente, o que dissemos antes: separar do corpo, quanto possível, a alma, e habituá-la a concentrar-se e recolher-se a si mesma, a afastar-se de todas as partes do corpo e a viver, agora e no futuro, isolada quanto possível e por si mesma, e como que liberta dos grilhões do corpo?

Serena é a amnésia, viver sem memória de si.

Experienciar cada dia esquecido do anterior, sem crenças imutáveis, sem ódios bárbaros.

É absurdo julgar algo como limitante quando nos concebe possibilidades; mas que ganho eu com a porção do oceano que não vejo? Com a vida que se cultiva, cresce e morre longe de mim?

Que ganho eu em reconhecer as extensões de um planeta, os mares que o afogam, os continentes que o navegam como embarcações de terra;
Se não sei onde se segrega o eu de mim; onde se criam os sentidos, as definições, os preconceitos, as tentações.

Por que motivo se embarca tão longe, já mar adentro, com um porto aqui ao lado?


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– “Sempre que volto aqui, principalmente quando entro no meu quarto de criança depois de meses sem o ver, ocorre-me sempre uma memória muito antiga. Lembro-me de acordar – na mesma cama que ainda lá está, na mesma posição – de abrir os olhos para vislumbrar os da minha mãe, de ela me levantar e de me levar para a casa de banho para lavar a cara. Lembro-me disto como se fosse um filme que vi há muito tempo, tudo com esta áurea de luz intensa, fantasiosa, surrealista.” – À medida que as palavras foram-se desenrolando, a voz transcendeu para um tom melodioso e arrastado.

É a tua primeira memória?

– “Acho que sim. Mas nem é essa a parte que mais me fascina. O que me ficou sempre agarrado foi ter, ao acordar, ao abrir os olhos, esta sensação de queda.”

Queda?

– “Sim. Como se tivesse sido naquele exacto momento em que acordei, que a minha consciência tomou posse; como se, antes dessa manhã, eu fosse só um corpo animalesco, a recorrer aos estímulos para me mexer, para fazer sons, para agarrar – e só naquele momento, naquele preciso segundo em que os meus olhos se abriram, é que a parte humana despertou, é que eu realmente passei a existir.”

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