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A Aposta de Pascal e os cobertores dos cães


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Blaise Pascal desenvolveu uma forma deveras peculiar de nos convencer a ser crentes – de tal forma peculiar, que remove a necessidade de Deus ser ou não real, e afasta-se das considerações usuais que procuravam provar a sua existência:

Blaise Pascal

“Examinemos este ponto, e digamos: ‘Deus existe ou não existe.‘ Para que lado nos inclinaremos? A razão não o pode determinar. Mas é preciso apostar. Não é coisa que dependa da vontade. Já estais embarcados. Que escolha fareis? A vossa razão não será mais lesada por escolherdes uma coisa de preferência à outra, pois é necessariamente forçoso escolher. Eis um ponto assente. Mas a vossa felicidade eterna? Ponderemos o ganho e a perda, escolhendo Deus. Ponderemos estes dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada, Apostai, pois, que Deus existe, sem hesitardes.”

Blaise Pascal

Resumindo, Pascal fala-nos em probabilidades:

  • Se acreditarmos em Deus e estivermos certos, teremos um ganho infinito;
  • Se acreditarmos em Deus e estivermos errados, teremos uma perda finita;
  • Se não acreditarmos em Deus e estivermos certos, teremos um ganho finito;
  • Se não acreditarmos em Deus e estivermos errados, teremos uma perda infinita.

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Assim, e olhando deste ponto de vista, quer Deus seja ou não real, acreditar n’Ele é a opção lógica – a mais vantajosa – já que, ao fazê-lo, ou temos um ganho infinito ou uma perda finita – ou Paraíso ou oblívio.

Há uma questão que rapidamente surge: Deus manifesta-se em diferentes concepções consoante as diferentes religiões, e se eu acreditar numa das erradas?
– É para isto que existe a Internet.

Fonte – Reddit

Mesmo considerando as várias fraquezas de um argumento destes, há que reconhecer a criatividade do ponto de vista: é olhar para um problema e tentar resolvê-lo sem resolver o problema em si – Deus existir ou não é indiferente, porque é sempre mais vantajoso acreditar.

De resto, a carreira de Pascal não se resume a esta ideia (nem tão-pouco mais ou menos), já que falamos de um homem, nascido em 1623, cujos contributos estenderam-se – para lá da filosofia e teologia – à matemática e física, tendo, por exemplo, desenvolvido uma das primeiras calculadoras mecânicas (Pascaline), estudado Mecânica dos Fluídos e contribuído para a criação da Geometria Projectiva e a Teoria de Probabilidades.

Isto, em 39 anos de vida.


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O meu cão, inconsciente de todas estas parvoíces, faz, todas as noites, a mesma dança antes de se deitar: morde o cobertor (sim, o cobertor dele) e tenta puxá-lo em todos os sentidos, recusando-se, no entanto, a sair de cima dele.
Não é difícil de recriar, nas nossas imaginações, os resultados infrutíferos de uma acção destas – resultados que ele também acaba por reconhecer, a determinado ponto, já que no fim da dança deita-se na mesma, com a cama em tudo semelhante a quando se levantou.

Photo by Burst on Pexels.com

É-me inevitável, ao testemunhar este espectáculo, identificar a metáfora.
Afinal, o que é o conhecimento senão o cobertor azul-rosado, ou rosa-azulado, do meu cão?

Na sua extensão, agarramos o que podemos – a porção que pomos entre os dentes – e puxamos para onde der, em sentidos inversos se assim tiver de ser e, no montinho criado, caímos-lhe em cima e lá descansamos.

Ao distorcê-lo, criamos versões desfiguradas dos padrões.
Ao deitar-nos, os montes abafam, ocos no âmago.
Poucos são os agrupados que se mantêm e, mesmo de entre estes, só uma ínfima porção apresenta-se de pés assentes no solo, um hora, um dia, um século depois.
O obsoletismo parece o destino de qualquer forma de pensamento organizado – se não agora, ou em 100 anos, certamente no próximo milénio, quando se rirem de nós como nós nos rimos do geocentrismo e da geração espontânea.


Somos criaturas cansadas; no entanto, irrequietas – numa espécie de birra do sono.
Exigimos o puxar do cobertor, mesmo que sem resultados, e lá nos deitamos e lhe chamamos nosso. Nas piores das circunstâncias, quando seria imperativo dormir, ainda assim nos revoltamos e, do avesso ou ao contrário, no reflexo ou encarado, enfrentamos as nossas limitações.

Há uma certa convergência de tragicidade e possibilidade nisto que é peculiarmente bela.
Afinal, o que nos leva a puxar?


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