lxxxv

Crónicas para dormir (XIII):
A percepção é sempre submissa.


Anúncios

Sinto o sedimentar de um peculiar controlo.

E tal como a rocha – a sedimentar, quero dizer – também a minha se forma por pequenos sedimentos; momentos acertados, em que as previsões, as probabilidades, se alinham com os resultados, e refresca-se a rocha, agregam-se os frouxos e precipitam os químicos.
Dou por mim com ela na mão – a rocha – e, noite adentro, nasce-me uma possessão, um egoísmo afável, que me pede, obceco, que a segure mais próximo, que me mantenha neste cerne onde precipitam e agregam os sedimentos solitários.

Vejo, no entanto, quando os meus olhos se fecham, um deserto rochoso e, por todo o lado, em cada canto, rochas sedimentares predominam neste chão; variam as dimensões, as cores, os químicos, mas todas estão confiantes de si, nunca se rendendo às evidências: somos sempre parte de algo maior.


Anúncios
Anúncios

Procuro sempre som no silêncio.

É algo que faço desde que me lembro: foco a audição mais na ausência, do que na generalidade dos sons.
Não sei o que espero ouvir – se é que espero algo de todo – mas é curiosa esta contradição: afinal, eu não procuro os sons de um arrombamento, de um assalto ou apocalipse; procuro, somente, o som do silêncio.
De igual modo e razão, esforço a vista no escuro, saboreio o insípido, inspiro o inodoro.

Nada é natural em sentidos obsoletos.
Vivemos numa rapidez característica, que nos afasta até desta noção; os sentidos estão sempre ligados, processamos continuamente o meio que nos envolve.

Ergue-se a questão: que somos quando removidos, por completo, a visão, tacto, olfacto, sabor, audição?
Imagine-se um corpo assim, desprovido; não ver, sentir, cheirar, saborear, ouvir o mundo.
Onde termina o sentido? Onde começa a razão?


Anúncios
Anúncios

Sinto sempre a vontade de terminar como as últimas músicas dos álbuns:

Num crescendo epopeico que se funde num único agregado sonoro.
Depois, o silêncio vem de uma vez.

Na escrita, no entanto, é mais difícil: posso escrever exaltado e ser lido no oposto, registar um sonho e interpretar-se como real, seccionar as partes e nunca se ver o todo – é o mal da percepção individual.
Se uma mente comum nos coordenasse, salvaguardava-se melhor este mundo, ou discordava-se em conjunto, porque, no indivíduo, a percepção é sempre oprimida, submissa aos ambíguos desejos.

Em qualquer dos casos são fantasias, especulações, que escrevo a dormir – ou dormitar, porque ainda não sei escrever nos sonhos.


Anúncios
Anúncios


Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: