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Crónicas para dormir (XIV):
Presidir um derrame cerebral.


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Vejo um erro profundo, mas não sei corrigi-lo.


É um estranho sexto sentido, em que reconheço o errado ao senti-lo, o violento ao temê-lo.

Sejamos sinceros – sou eu quem escreve ou o sono que me toma, nestas noites para dormir, e se exprime deste jeito distinto?
Porque eu não sei o que digo, e facilmente acordo sem recordar uma única destas palavras. É quase belo, já que quase escrevo para mim, fora de mim.


É humilde, que presido este derrame cerebral – sento-me no centro da mesa e modero, ouço os argumentos, contra e a favor, os vários corações a vociferar e, no fim, deixo-os partir e escrevo o que aprendi, numa espécie de anamnese de um diálogo.

Hoje discutiram felicidade, e ocorreu, de um lado, o exaltar de um argumento singelo, até então nunca ouvido nesta mesa que presido.

Disse um deles:

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Afirmo aqui que não entendo esta busca incessante e ambígua!

Dizem vocês que queremos saúde, emprego, dinheiro, família, amigos, porque tudo isto é, em si, na essência, a felicidade, a eudemonia. Exigimos nós, a procura destes conceitos – destas superstições – porque concordamos, desde cedo, que a felicidade, o bem-estar, desses termos são sinónimos.

Contudo, vejamos assim, não é a felicidade um conceito que funciona em sociedade, porque programa a sociedade – cada um de nós – a almejar pelo mesmo? A empurrar na mesma direcção: a direcção que favorece a sociedade no seu conjunto?

Ao procurarmos a felicidade no mesmo lugar, ordena-se a sociedade no que os cidadãos procuram e no que o estado fornece – e o fornecimento é sempre aquém mas sempre próximo, o suficiente para alimentar o sonho sem o satisfazer, como um lar de órfãos.

Mas, pergunto-vos, há realidade na utopia de um bem-estar plural a todo um ser?
E se há, não deveria já ter sido descoberto, mais de 2000 anos de discussão depois?”

Eu, pessoalmente, achei toda a questão mal fundamentada e um tanto ou quanto pueril, mas a mesa explodiu em discórdia, numa tal euforia emocional, que vi-me forçado a dar por terminada a sessão, tarde demais para evitar os risos e abraços dos delírios, e os lamentos e colapsos dos franzinos.


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