xcvii

Avós e netos. (I)


Anúncios

Sirenes rugem ao longe.
Contam de uma urgência, algures, que não chega até mim.

Eu sou o mar calmo, que desenrola em anãs ondas, quando o sol está a nascer.
Sou a chuva morrinha que não molha, só apressa.
Sou as chamas controladas, as que limpas as seringas.

As sirenes, ao longe, não chegam até mim; ficam no seu mundo, onde as sirenes se traduzem.
Aqui, ninguém sabe o que querem dizer.


Vejo a minha avó envolver a mão num vidro.
O dedo, já longe da destreza de outros tempos, aperta onde o vidro afia e, num ponto único e definido, a pele sofre o mais pequeno dos cortes.

Anúncios
Anúncios

A minha avó não se atormenta.
Olha o dedo e zanga-se com ele, por já não ser jovem e capaz.
Agarra a pele que envolve a ferida, aperta-a como as bochechas de um bebé, e uma gotícula de sangue emerge.

Nunca vi nada tão vermelho, tão vivo e intenso, com se a força que a move se espelhasse naquela gota – uma revolução das convenções, da dualidade de velhice e fraqueza.

Nasce, intrínseco, um respeito em mim, uma admiração humana, não pela gota que emerge viva, mas pela mulher que nunca verga, que dobra a pele e a faz sangrar onde lhe é frágil.
A vida está ali, como os cactos no deserto – quem não vê beleza nisso, não vê beleza de todo.


Anúncios
Anúncios


Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: