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Sobre Humildade.


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Voam, lá fora, versões de pássaros: uns brancos, outros marcados de preto, aqui e ali, nesta e naquela pena, só para quebrar a monotonia.
Por vezes, surge um todo vestido de negro, sem penas brancas – tornou-se no oposto do que temia mas, curiosamente, no mesmo.

Os opostos são insatisfeitos que se contentam.


Haverá traço mais universal do que a humildade?
É fácil, certamente, ver-se a sua ausência; afinal, não são poucas as histórias em que se contam as vicissitudes dos que encontram, em si, justificação para tudo o resto.

Mas remeto para uma forma maior de humildade: a que não expõe as nossas crenças – religiosas ou outras.

Se é fácil reconhecer o egoísmo declarado, então e as suas formas mais discretas?

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Os nómadas que fogem de onde os conhecem?
Os artistas que não sabem de arte?
Os atores que se formam nas redes sociais?
Os talentosos que se justificam no talento?

É tão fácil ser-se humilde quando não se é: afinal, é traço geral, um reconhecimento a priori, um valor que todos procuram quando se expõem – que dualidade esclarecedora é uma exposição humilde!


Transposto para sinónimos: há, ou parece haver, um gutural sentido de dever na humildade com tal potência que, mesmo quando o desejo de nos expor ou iludir é superior, surge sempre num véu humilde, como quem diz:

  • Fui o mais rápido, mas nem me esforcei!”
  • Sempre quis atuar, mas nunca tive aulas de teatro!”
  • Gosto de viajar, não posso viver no mesmo sítio muito tempo!”
  • Nunca aprendi música, só nasci com talento.”
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Note-se: estas quatro frases diferem entre si na motivação – vergonha, medo, desejo – mas em todas se rege o mesmo véu, a mesma vontade em ser-se humilde, sem que pudesse ser mais evidente a falha:

Não há humildade que se construa numa desfigurada conceção pessoal.


Como o pássaro negro, lá fora, que voa com uma tinta diferente, sujeito, no entanto, às mesmas vicissitudes do que o pássaro branco ou até o malhado; também me parece haver, em nós, um sistémico, ignorante, incongruente foco no que embeleza a estrutura, sem pensar na arquitetura subjacente.

A humildade não é só a moral das histórias para crianças; é a permissão que oferecemos a nós próprios para nos entendermos, descobrirmos de que são feitos os ossos que suportam uma identidade.

Não há um Eu que não conheço; há o Eu e o que eu não conheço – se não o conheço, não sou Eu.

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