Longitudes. (II)


Nasci para ser homem mas nunca me ensinaram a ser.
Deram-me gostos abstratos, sintéticos defeitos que uso e abuso
Mas recuso;
Recuso veemente qualquer jeito de piegas, qualquer indício de compreensão.
Não te quero conhecer, muito menos ver-te ou ouvir-te dizer o meu nome –
Esses lábios porcos sem coesão –
Rejeito o que tomas por amor, a paixão de te perderes em quem eu sou, em fazeres de mim a tua salvação.

Nasci para ser homem mas nunca me ensinaram a ser.
Não venhas agora instruir-me a decrescer, a quebrar as costas que se esforçam em suster;
Não desejo ser maior ou mais alto, menor ou mais curto,
Mas apenas viver neste recanto que descobri entre viagens, onde pousei as minhas trouxas e declarei
Meu.

Ah! Falar de viver!
São palavras tão ambíguas, as que nos enchem e preenchem.
Falo em viver, mas não é de viver que falo; é uma sombra – o viver – uma sombra de viver;
Não há palavra no dicionário que não seja um fantasma
E quando as escrevo, em papel, o que tu lês é o que defines, nas fronteiras da definição.
Chamas ouvir às frequências que ouves, mas não as outras; as outras são deteções, vibrações que os morcegos – temíveis bestas vampiras – pressentem.

Um dia, vou inventar uma linguagem:
Cada letra, um universo; cada palavra, um expressar completo.

Um dia, vou fazer-me entender.



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