cix

longitudes. (III)


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O meu mundo é uma cidade.
Recuso-me a anexar; é teimosia mas temo a grandeza.

Os carros apitam no trânsito; e as melodias que formam, entretêm as horas.
Mas os empregos cansam. Todos os chefes e patrões, os doutores e os senhores…
O desejo comum é o de chegar a casa, e ouvir a televisão a contar do dia, as desgraças repetidas.
Mas em casa são os filhos; pedem sempre, nunca dão
E os maridos, as esposas, os companheiros e as afrontas,
Onde foram os dias de paixão?
E as lágrimas que choram – foi ontem ou amanhã?

O meu mundo é uma cidade.
Há sempre algo de trágico no movimento organizado.

O corpo, o organismo, o sangue que chega e vai,
E, lá fora, a eletricidade estende os braços e salva vidas nos hospitais.
Mas de que serve o esforço?
Concentremo-nos antes nos candeeiros, são tão negligenciáveis mas iluminam o caminho.
Ou então nas máquinas das feiras – o algodão-doce, as pipocas, os carrinhos-de-choque…
Nenhum viver se assemelha a um embate frontal.
E, no fim, os esgotos – há uma arte sincera nas tubagens.

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O meu mundo é uma cidade.
A cultura aponta para mim: é um bizarro espetáculo.

Nos cinemas e teatros, os atores e as atrizes erguem o dedo;
Nos museus e galerias, as obras todas me olham, mesmo sem olhos, mesmo sem ver;
Nos zoos e jardins, os recantos isolados e os centros históricos – em cada canto, o mesmo peso me dirigem;
Cantam-me os cantores, os dançarinos estendem-se, ouço os saxofones a chamar, o ritmo marca o bombo.
Que querem de mim?
Vivam, foda-se!

O meu mundo é uma cidade.
O circo vai começar num descampado qualquer.

Este não tem animais; já os mataram a todos e deram-nos de comer às crianças.
Senhoras e senhores, meninos e meninas…”
O nariz vermelho é uma metáfora: quando chegar a casa, vai emborcar o que houver.
Não se pode ser esquisito, quando se é pobre – mas pode-se ser tantas outras coisas.
Pode-se ser feliz, por exemplo.
Que o diga a Natureza, que floresce em cada fenda;
Ou até os cães: que mesmo salivando com a campainha, ainda mijam em todo o lado.
Que mais se pode querer?


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