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longitudes. (V)


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I

Viver envolve uma convivência com o desespero.
Como quem constrói um puzzle e vê as peças amontoadas.
Eu, primeiro, reúno os cantos de um lado.
Depois o resto.

O puzzle enganou-me, no entanto: não é só um, são muitos.
E de cada, tenho umas partes mas nunca um todo;
E os cantos – que são efetivamente cantos – de nada me servem porque não se conhecem;
E o resto – que não é só resto – acaso se ligam, aqui e ali,
E dão-me um teto, um jardim, um dragão, um selim,
Um sorriso que não sei o que expressa, há nele algo de perverso.

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Haverá absurdo maior do que querer um puzzle feito?
Que teriam os puzzles para se bater com as fotos?
Não, já ninguém se deslumbra com o abecedário.
A televisão é só um hábito adquirido.
O mundo já contém toda a realidade e os super-heróis são só humanos em fatos de licra.

Insisto, ainda assim (louco eu!), numa ordem cósmica que dê senso,
Pois não suporto o caos aleatório,
Um mundo desregrado, amedrontado.
Desmonto as peças todas as noites
E de manhã, já chamam por mim.
Julgo sempre, em ilusão, ver um extra que se une –
Só hoje, ontem não.

Aceito estes enganos, estas tentativas de arrumação.
(Ao menos, tenta-se!)
São preliminares que me seduzem, e me baralham, e me convencem
A viver mais um bocado.

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