Barulho



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“És só barulho.”

Foi com uma metáfora que ela escolheu sair de rompante, deixando o silêncio da luz do candeeiro que, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre a bruxulear, como se perdesse potência por um segundo, ou reservasse forças para mais logo. A ele – o jovem Henrique, ainda que já não tão jovem como antigamente – pareceu-lhe poético; pelo menos numa primeira análise.

Foi ao frigorífico, carregando o repugno nos passos, da sala até à cozinha, e abriu uma nova cerveja. A frescura do vidro de encontro ao sangue fervente a correr-lhe – possesso – nas veias, relembrou-o do que iniciou a discussão: o fim do Verão.

Ela disse “Não gosto nada do fim do Verão.” Ao que ele respondeu “Não faz grande diferença.” Ela riu-se, como uma hiena numa corrida fulminante, febril com a visão de uma presa fácil. Ele remeteu-se ao silêncio indigesto que sempre lhe cria azia, obrigando-o a suspirar em frequências audíveis, como a cria suspira o sono, ignorante dos dentes que se aproximam pela sua carne.

O Henrique arrastou-se de volta à sala, já a ira diluída na fadiga dos passos, e aterrou na poltrona – por um triz não a falhando – mas espirrando parte da cerveja na sua camisola branca. Não o incomodou em excesso, pois a mancha que virá, quando secar, juntar-se-á às outras tantas que já lá convivem. Ainda assim, exasperou com a perda.

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A metáfora voltou-lhe à mente, vendo-a, no entanto, com outros olhos. Quem diz que ela o disse como um insulto? Talvez ela pretendesse compará-lo com uma boa música, o som da chuva numa noite fria, o bater à porta na penumbra da solidão. Tantos barulhos são bons, porque haveria ele de ser um nefasto?

Depois do seu suspiro, ela voltou a falar, desta vez com os dentes já envoltos no pescoço do pequeno ser “E o que é que te faz diferença, diz-me lá.” Ele pensou antes de responder, obrigando-se a dar seriedade à pergunta “A mudança da hora.” Ela repetiu a frase mas alterando a melodia, para lhe conferir um valor interrogativo. Ele submeteu-se a facultar maior detalhe, depois do “Sim” inicial despertar um olhar desgastado mas intenso sobre o seu corpo “Quer perca ou ganhe uma hora, o meu dia altera-se, os horários alteram-se. As seis da tarde de um dia, já não serão as seis da tarde do dia seguinte. De um segundo para o outro, viajas no tempo – ou vivendo a mesma hora duas vezes, ou saltando uma. Isso perturba-me muito mais do que o vagar enfadonho com que o dia encurta, ao longo de meses.

O Henrique estendeu a mão para o comando, em equilíbrio no encosto de braço da poltrona, e deixou o dedo escolher o número a pressionar. A televisão iluminou-se logo de seguida como se temesse tornar-se obsoleta, e uma sedutora voz feminina enunciou as elevadas temperaturas de um Outono ainda agarrado à estação anterior.

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