Barulho



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És só barulho.” Desta vez, leu-lhe uma ambição desmedida. Quem é ela, que ele não é? Que som é esse que ele faz, que o descreve tão plenamente, que o converte em frequências, ondas, amplitudes? Talvez seja algo que só ele não ouve por já se ter acostumado, como o vislumbre do nariz que o cérebro apaga para não incomodar a visão.

És mesmo especialzinho, não é? Sabes dizer três palavras juntas!” Disse ela, usando o desprezo como gume para dilacerar a carne do indefeso “Quem te disse que eu estava a falar do tempo, sequer? Não gosto do fim do Verão, porque depois vem o frio.” Ele riu-se, num gesto cuspido. “Qual é a piada?” Perguntou ela. “Se vires bem, não deixa de ser sobre o tempo.

O dedo do Henrique voltou a descer, pressionando os relevos de borracha, e a imagem alterou-se. A sedutora voz feminina e a pacífica, cativante visão satélite do país, com pequenas nuvens e sóis a enfeitar, deram lugar ao caos de uns desenhos animados quaisquer, com cores exóticas e movimentos electrizantes.

Assolou-o uma fria tristeza ao não conseguir decifrar mais sentidos para a metáfora, para lá do incessante som de quem não tem nada para dizer. Fechou os olhos e tentou ouvir a sua engrenagem a coordenar a vida: os movimentos peristálticos dos tubos digestivos a empurrar comida, na nascente, e as fezes, na foz; as secreções das glândulas acessórias e os ácidos sucos gástricos a espumar pela chegada de matéria para corroer; o assobio dos ventos a percorrer as asfixiantes vias aéreas, inconscientes do mau negócio que lhes vai ser feito ao chegarem aos alvéolos.

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Ela não se riu com as palavras dele; talvez por não achar piada, talvez por não a perceber, talvez por entender que, se se risse, mataria a raiva que a preenche tão confortavelmente. Ao invés, ergueu-se do sofá e olhou-o de cima, já sem muito de hiena, e disse “Quando é que te vais fazer homenzinho?” Ele não se riu, desta vez, também já sem muito de cria, e respondeu “Quando o homenzinho se fizer de mim.” A metáfora surgiu logo de seguida, a meio de uma caminhada determinada até à porta, por onde o corpo dela desvaneceu.

O Henrique abriu os olhos, sendo o seu campo visual novamente invadido pelo surrealismo da televisão. Deu-se conta, sem o compreender mas já o antecipando, de ter o telemóvel na mão. Desbloqueou-o e ligou para ela, em gestos solenes e firmes, e aguardou pelo vibrar indicativo do atender da chamada, no outro lado da linha. “O que é que tu queres?” Perguntou ela. O Henrique suspendeu as palavras, observando no redor o seu mundo – as paredes, o chão e o tecto que delimitam as fronteiras; a mobília enraizada de braços estendidos; os insectos nos cantos sinistros incontornáveis – e soube, nesse segundo, que a queria a ela. “Desculpa-me. Não me deixes sozinho. Quero ter-te ao meu lado quando me deitar.” Ela suspirou, do outro lado “Prometes que não me vais chatear?”. Ele sorriu, com um atípico sabor metálico na boca “Nem sequer faço barulho.” Ela desligou a chamada, já em sentido de retorno. O Henrique deixou o telemóvel deslizar desamparado, e reposicionou-se no conforto da poltrona, aproveitando para mudar novamente de canal.

FIM

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2 opiniões sobre “Barulho

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