Viagens. (I)


Num comboio, ontem, uma mãe voltou-se do seu banco para o meu, olhou-me embaraçada e pediu-me desculpa; desculpa pelo barulho que os seus dois filhos faziam. Imagine-se. Pedir perdão pela vida. Soubesse a senhora, em oposição, que um em cada dois autocarros tem alguém a ouvir música nos altifalantes do telemóvel, apenas e somente porque sim.

A filha – empolgada, consciente da sua graça – esperneia por todo o lado, numa vital curiosidade que a faz agarrar o pó do chão, pôr uma toalhita dodot na boca, sentir as reentrâncias das almofadas dos bancos, comparar as temperaturas das janelas – tão frias – com a pele quente do irmão bebé. Esse – o irmão – só dorme; ou finalmente adormeceu, como diriam os pais, se fossem eles a escrever. A miúda transita entre os sons agudos, assobios, assopros e guinchos – que lhe trazem a atenção – e o choro, o lábio caído, as palavras balbuciadas e os amuos – que despertam a empatia – de forma automática e frequente. São gestos e atos tão crus; involuídas expressões de tudo o que fará, daqui a 20 anos, quando já tiver aprendido a etiqueta dos comboios.

(Comunicação)

Os pais pedem-lhe que fale baixo – consegues fazer isso? – num acesso de raiva que passa logo, ao vê-la honesta – Eu sei que é chato, querida. Claro que sabem, estão num comboio há horas; mas é tão fácil esquecer o quão chato é e quão normal é para nós esta chatice.

(É sempre tão fácil esquecer.)

Entretanto, atrás de mim, um estrangeiro é expulso por não ter bilhete, ou dinheiro, ou identificação. Não consigo ver o homem, mas ouço-lhe o inglês – vibrante, desordenado, temente, I have a card! I have a card! – a contrastar com o português – amargo, resoluto, amargo outra vez, Next stop, get out.

(A conversa fica por ali.)

O pai, à minha frente, volta-se para a esposa e há uma intimidade que já nada tem de sensual – é certo – mas aprofunda-se numa exaustão partilhada, tão invulgarmente bela. Diz-lhe Viste o quão bruto foi o revisor? Já a miúda cantarola tchuki tchuki tu! Tchuki tchuki tu! Tchuki tchuki tu! e depois espirra e ri-se de si mesma. A mãe ri-se também, já sem saber nada mais do que o absoluto cansaço: Não metas a boca na minha mão, senão a mãe vai-se rir. Mas a miúda é rápida a perceber o poder que tem, e de dois em dois segundos lá surge a cabeça dela em direção à mãe, e a mãe ri-se: Eu estou-me a rir mas não acho piada nenhuma! E não acha mesmo, é só o cansaço a levar a melhor, uma espécie de embriaguez catártica.


Amanhã, já ninguém quererá saber destes momentos. Também eu, inevitavelmente, os esquecerei.

O mundo prossegue.


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