Uma mosca chamada Miranda



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Já dizia Lavoisier que “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” e, se é já um cliché dizê-lo, felizmente isso não lhe remove a veracidade.

À falta de dentes, as moscas descobriram um processo alternativo marcadamente repugnante para se alimentarem: primeiro, ao pousar numa superfície, a mosca recorre aos pés para saborear o que a rodeia; depois, descobrindo algo de que gosta, ela regurgita para cima dos alimentos, espeta a probóscide na mistura e, numa das maravilhas da natureza, suga a refeição.

E assim, numa única frase, temos as duas principais diferenças entre os humanos e as moscas: nenhuma pessoa usa os pés para provar comida – imagine-se um convidado a saltar para cima da mesa, descalço, para pisar o empadão de peru – e, pelo menos propositado, nenhuma pessoa vomita na sua própria refeição, procedendo depois a ingerir tudo junto como se de um acréscimo se tratasse.

O resto – a anatomia, a biologia, a filosofia – são diferenças iguais.

Uma destas moscas, ainda nem uma semana fez do seu nascimento, sobrevoa os quintais de um conjunto de casas alentejanas – do Baixo Alentejo – brancas, em supremacia, à excepção das cores que limitam as janelas: ora amarelas com infiltrações fúngicas, ora laranjas que, mesmo sem as tais infiltrações, já começam a tender mais para um amarelo frouxo do que o laranja vivo original.

Chamemos-lhe Miranda. Não porque seja esse o nome dela – afinal, enquanto mosca, não teve nem a sorte de um baptismo, nem o azar de uma adopção – mas porque, tal como com os burros de Miranda, associa-se, injustamente, uma certa falta de inteligência às moscas.

Claro que tudo isto não passa de especismo, afinal com que justificação é quem alguém se afirma mais inteligente do que um burro? Só porque eles não falam, não têm casas e não estudam metafísica? Já o dizia Sócrates e não há vergonha nenhuma em admitir que nada se sabe; talvez até seja, no fim, o verdadeiro sinal de inteligência. Enfim.

 As danadas nuvens cinzentas que pintam o céu, com ameaças de um choro intenso, afectam a moral da Miranda; mas nada a entristece tanto como a fome. Assim, de quintal em quintal, procura por uma porta a abrir, uma janela descuidada, qualquer abertura que a leve aos tesouros no interior das casas.

Finalmente uma porta abre-se, numa das casas com a fachada amarelo frouxo. A Miranda, contudo, nem tem tempo para apreciar as cores; em vez, fechando o pequeno corpo, realiza um vôo rasante:

– “Fecha a porta que entram moscas!” – Grita alguém, lá de dentro, uma autoridade feminina.

A Miranda acelera, dentro das limitações do seu organismo, ao ver o movimento daquele rectângulo metálico que sempre lhe limita a passagem e raramente lhe permite a entrada.

Num esforço sobre-humano – já que Miranda é uma mosca – a pequena lá consegue atravessar para o interior. Não foi no último segundo, ao contrário do que se possa esperar, já que não estamos em Hollywood mas no Baixo Alentejo, onde tudo se move um pouco mais devagar – as pessoas e as portas. Nas moscas, com ciclos de vida tão curtos, não se nota tanto. Curiosamente, no fim, a porta nem fechou, só ficou encostada.


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