cxxiv

Crónicas para dormir (XIX):
Deus e o Teatro.


Anúncios

A caminhar em passos bravos, deixei escorregar (mero acidente) o meu interesse em sensações.
Já não me comovem, essas formas teatrais de entreter o desassossego – mal termina a peça, termina a ilusão, e a beleza, o esplendor, está na insciência do fim.

Não lhes veria qualquer mal (são parques de diversões, afinal), mas é do ventre do possuir que surge a mais fogosa desordem, é das entranhas do querer que se justificam os atos mais severos. Sendo um teatro, é um onde morrem os atores, e o pânico instala-se na plateia. Uns gritam e fogem, outros morrem e matam – mas, no fim, numa divina e profunda ironia, é sempre tudo relativo: o que se expressa e o que se pensa.


É só um dia; termina em passo igual, o mesmo que lhe deu início.
Contudo, se o tempo e o espaço são tão-somente categorias – formas de moldar o absoluto – então estas frases não dizem nada. Que amanhã o sol nasça a passo igual a que hoje se deita é um absurdo que nada expressa, uma construção de hábito em vácuo.

No fundo, o irritante é o querer saber, o questionar do sentido num universo ininteligível – e isso não deixa de ser uma sensação.
O meu querer saber do sol é, então, relativo – por A=B e C=A – e ainda entro em contradição, já que deixei escorregar o meu interesse em sensações há bocado, e agora encontro-me perante um assumido interesse.

Concluo, por dúbia extrapolação, que o meu fascínio está no querer saber – o ato em si – e tudo o resto é entretenimento para adormecer.


Anúncios
Anúncios

De entre todas estas palavras, não me identifico com nenhuma. Na verdade, a conclusão é a mesma, ainda que se considere todo o léxico.

Os termos são subjetivos, mas não se aplicam aos sujeitos.
Aplicam-se a uma qualquer forma concreta de indivíduo; um ato de teatro único, momentâneo, que desvanece sem chegar a existir; uma personagem encarnada numa pele que não é a sua e, por um momento, ao longe, vivem dois organismos num só. De perto, vê-se um corpo e a roupa que o veste.

São concretos, porque procuram num ponto a plenitude; são incongruentes, porque não existem pontos, só um fluxo contínuo. No fundo, são caricaturas – somos caricaturas quando nos identificamos.

É algo herético mas, ainda assim, navega sempre à deriva pela minha cabeça: que Deus, a existir, criou-nos como entretenimento, e ao ligar a televisão, é a nós que vê, à sexta à noite, a recairmos pelas ruas das cidades, olhos no céu, mãos no peito, “qual é o significado de tudo isto?”. E Deus ri-se, porque aos seus olhos, a pergunta é a punch-line de uma longa piada.

Anúncios
Anúncios


Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: