Mil Homens

literatura. música. arte digital.



Viagens. (III)


Sentei-me no canto onde se espera, mas não por os comboios se atrasarem; são sempre as pessoas que se adiantam. Eu, pelo menos, adianto-me sempre; é um mal de nascença, aproveito o presente no passado e o futuro, esse, já o estou a viver, agora mesmo nesta sala cinzenta, televisada em silêncio para entreter só a visão.

Sentei-me neste canto, na cadeira encostada à parede, gémea de todas as outras: plástico, castanha, desconfortável. As minhas costas ouvem o som de uma voz envelhecida; conta uma história a alguém, não das bonitas que os velhos contam nos filmes, em defesa de uma moral qualquer que se perdeu nos jovens, não; conta uma fofoquice, o João que se casou e agora já não vai a casa, é a esposa que não quer, o João sempre foi tão bom menino…

Abro a mochila para tirar o livro. Morreste-me, José Luís Peixoto. Não o vou ler, mas vou abrir as páginas e divagar pelas palavras. Gosto de ver os traços negros, como contrastam com o branco; sem eles, este livro seria só um conjunto de páginas vazias. Não é consciente mas, por vezes, há uma palavra que se destaca por entre as outras; nada tem de especial mas estende-me os braços e eu abraço-a, é amiga, é íntima, sabe mais do que eu, mas também eu não sei nada, é fácil saber mais do que eu – é só acreditar em alguma coisa.

Morreste-me, José Luís Peixoto. Sempre achei um dos títulos mais bonitos: expressa tudo numa só palavra, é egoísta de sentido mas não faz mal, não vai haver nenhuma melhor do que ela, tem direito ao egoísmo. Se for pecado, resolve-se depois.

Morreste-me. Da primeira vez, emocionei-me. Foi há mais de um ano. Desta vez não. É normal, é o costume, a emoção é um mundo de relativos, de momentos que mudam arbitrariamente; não é justo esperar o mesmo, afinal a justiça morreu. Deus também. Não interessa quem o disse, interessa somente a questão que fica, que é sempre a mesma: e agora?

Pouca terra, pouca terra.
O comboio faz mesmo pouca terra; sempre há verdade na infância. As onomatopeias são verdade, podem até ser verdades absolutas, se me apetecer que assim seja, agora, neste momento.

(um segundo)

Ainda aguardei um segundo pela confirmação, mas o mundo manteve-se, como esperado, manteve-se realmente, sem colapsos ou apocalipses. A verdade é que não acreditei no que disse, nessa mentira sobre as onomatopeias, só menti para testar as indiferenças.

Os comboios atrasam-se constantemente, as pessoas adiantam-se em reflexo, e o mundo vive, em simultâneo, qualquer realidade que eu defina, qualquer interpretação a que eu adira. É que quando morre Deus e a justiça e tudo o resto, o que fica é um fluxo que não sabe o nome de ninguém.

O comboio ainda demora, agora vou ter de esperar. É só tempo, está tudo bem.


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