cxxvi

Viagens. (III)


Anúncios

Sentei-me no canto onde se espera; os comboios não se atrasam, são as pessoas que se adiantam. Eu, pelo menos, adianto-me sempre; é um mal de nascença, aproveito o presente no passado e o futuro, esse, já o estou a viver, agora mesmo nesta sala cinzenta, televisada em silêncio para entreter só a visão.

Sentei-me neste canto, na cadeira encostada à parede, gémea de todas as outras: plástico, castanha, desconfortável.

As minhas costas ouvem o som de uma voz envelhecida; conta uma história a alguém, não das bonitas que os velhos contam nos filmes, em defesa de uma moral qualquer que se perdeu nos jovens, não; conta uma fofoquice, o João que se casou e agora já não vai a casa, é a esposa que não quer, o João sempre foi tão bom menino…

Abro a mochila para tirar o livro. Morreste-me, José Luís Peixoto. Não o vou ler, mas vou abrir as páginas e divagar pelas palavras; gosto de ver os traços negros, como contrastam com o branco; sem eles, este livro seria só um conjunto de páginas vazias.
Não é consciente mas, por vezes, há uma palavra que se destaca por entre as outras; nada tem de especial mas estende-me os braços e eu abraço-a, é amiga, é íntima, sabe mais do que eu, mas também eu não sei nada, é fácil saber mais do que eu – é só acreditar em alguma coisa.

Anúncios
Anúncios

Morreste-me, José Luís Peixoto. Sempre achei um dos títulos mais bonitos: expressa tudo numa só palavra, é egoísta de sentido mas não faz mal, não vai haver nenhuma melhor do que ela, tem direito ao egoísmo. Se for pecado, resolve-se depois.

Morreste-me, José Luís Peixoto. Da primeira vez, emocionei-me. Foi há mais de um ano. Desta vez, já não. É normal, é o costume, a emoção é um mundo de relativos, de momentos que mudam arbitrariamente; não é justo esperar o mesmo, afinal a Justiça morreu. Deus também. Foi o Nietzsche que o disse, não fui eu, mas a questão que fica é a mesma: e agora?

Pouca terra, pouca terra.
O comboio faz mesmo pouca terra; sempre há verdade na infância. As onomatopeias são verdade, são verdade absoluta, apetece-me que assim seja, agora, neste momento.

(um segundo)

Ainda aguardei um segundo pela confirmação, mas o mundo manteve-se, realmente, sem colapsos ou apocalipses; a verdade é que não acreditei no que disse, só menti para testar as indiferenças.

Os comboios atrasam-se constantemente, as pessoas adiantam-se em reflexo, e o mundo vive, em simultâneo, qualquer realidade que eu defina, qualquer interpretação que eu decida, porque quando morre Deus e a Justiça e tudo o resto, o que fica é um fluxo que não sabe o nome de ninguém.

O comboio ainda demora, agora vou ter de esperar.
É só tempo, está tudo bem.

Anúncios
Anúncios


Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: