cxxxii

Liberdade e Televisão.


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O botão no comando e a televisão acende; não é magia mas podia ser.
Um homem; é quem primeiro surge (são sempre os primeiros a surgir), vem com reverência, um expressar de confiança de quem faz o mesmo há muito tempo.
Ouço o homem a contar de um mundo; é um que não conheço, outro talvez que não este, não sei, eu não sei, só sei que não é este, o meu. São mais as desgraças, é certo, ouço-o a contá-las como se fossem a sinopses de filmes que nunca vi, há uma emoção no relato que transfigura a tragédia; é um programa, é comoção, é um enredo que me quer envolver mas, do outro lado, é alguém que morreu. É sempre alguém que morreu.

Segue-se algo bom; um relato de um feito qualquer. Não entendo bem (fiquei preso na morte) mas a voz do homem diz-me que devo sentir-me bem, é patriótico ficar feliz pelos meus, mas só pelos bons, pelos que não vivem aqui, pelos que aparecem, os rostos, na televisão, onde o homem diz os seus nomes e eu assim já os sei, já os posso repetir.
Agora já sei, agora já sei.


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Imagine-se um mundo que não me dissesse o que sentir; ficaria perdido entre as emoções.
Não saberia o orgulho de ser português porque portugal Portugal tem lugar no mundo, é esse o orgulho, a disposição espacial, o prolongamento temporal; não saberia quem odiar, perder-me-ia entre todos estes pequenos ódios, até os redirigiria para mim – assim não, assim sei onde deposito, onde me deposito, este espelho que sou, esta máquina de reflexos.

Não me digas o que sentir (não me restrinjas a liberdade!), diz-me antes para onde olhar; é suficiente para saber, temos o mesmo código, se tu o sentes, também eu o sentirei, dor é dor amor é amor, o meu corpo, o teu corpo, é tudo igual, é tudo o mesmo. Perante mim, somos o mesmo; espelho-te e tu a mim. Se em vez de ti, for a televisão ou o homem que me conta as notícias, será nele que me procuro, encontro-me facilmente, as palavras que quero dizer estão todas ali, é só um processo de decorar e interiorizar, decorar e interiorizar, decorar interiorizar.
No fim do dia, é automático; até um niilista se esforça mais.


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