cxxxv

Sobre Liberdade.


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Em meu redor, estende-se o horizonte.
O chão é pedra e terra, rocha e mineral, e imita-se de metro a metro, repete-se até ao limite do meu ver; depois é a cinza que envolve e recobre o espaço e nada mais. A vida não cresce aqui, talvez reflexo das imposições da altitude na atmosfera, o oxigénio que se perde nos andares de baixo e aqui só há o suficiente para mim. A vida terá de esperar que eu parta.

À minha frente, um precipício.
Já não há espaço para um novo passo, não em frente. Os meus pés oscilam nos limites deste mundo, e vejo a queda e a penumbra que esconde o fundo; talvez não haja fundo, talvez, nos limites deste mundo, não haja mais do que uma queda, não tenho como saber.

O que quero, no entanto, o que quero neste momento, é saltar em frente e, em vez de cair para o profundo que não conheço e não sei o que tem, quero ir para cima, cair em reverso, subir em queda, alterar a ordem natural das coisas e ver no topo o meu destino ao saltar deste precipício.
É absurdo. Ilógico.
É algo que não posso fazer.


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Saltei, perante as opções.
Concluí que, nas suas várias formas, se resumiam assim as minhas opções: recuar, ficar ou avançar; movimento ou repouso.

Pensei em recuar; descobri que não queria.
A vontade falou em mim, em palavras sinistras se expressou, em ondas elétricas de emoções, desconfortos corporais desconstruídos em transparentes vergonhas, cenários de embaraços sufocantes, dilacerantes como só entende quem recua em vez de avançar; não me soube desapegar.

Pensei em ficar; descobri uma indiferença, primeiro, depois um enorme aborrecimento.
Quem falou foi um ardor, uma inquietação generalizada, como um pânico independente, com vida própria e individual, desgovernado e sem alvo mas com urgência em se mover, em acudir a um esforço tremendo para manter o movimento, a contração e o relaxamento, a contração e o relaxamento.

Pensei em avançar; descobri-a isolada e inofensiva, como um abraço terno ou um sono profundo.
E assim saltei, perante as opções.


Estou a cair.
Consigo mover as mãos e os pés, os dedos tremelicam ao meu comando; já as pernas, os braços, encontram uma maior resistência, defrontam-se com um vento que as impele a desobedecer.
Estou de cabeça para baixo, o sangue ainda me atravessa enclausurado nos seus canais – uns grandes, outros tão pequeninos que foram precisos séculos para se descobrir. Há animais em que o sangue foge, por um momento, das veias e artérias, depois volta. Connosco, não; quando o sangue sai, já não tem como voltar, sai uma vez e acabou-se.

Estou a cair.
Gostava que a gravidade se esquecesse de mim, mas acelera-me, em vez, e eu, regular, tão regular que podia medi-lo, acelero, a velocidade a aumentar; a pedra, a rocha em meu redor, não chega a surgir e já passou por mim, e eu a acelerar, a velocidade a aumentar, o medir do regular desta aceleração e a vertiginosa ideia que se forma, involuntária, do embate.

Estou a cair.
É tudo o que posso fazer.
Decidi avançar e saltei e estou a cair, agora.


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É ser livre; mas prende-me a vontade.
Nunca escapo a fazer o que quero, mesmo quando quero fazer o oposto ao meu querer.

É ser livre; mas não é mesmo, porque ser, em si, antes de livre, é sujeito às leis que se lhe impõe; as que me explicam até onde estende o meu braço, o que é cima e o que é baixo, o contingente e o necessário.

É ser livre; mas não é pela extensão do que faço, pelo contrário – é pelos limites que sou livre, por os conhecer, por saber que a morte é a morte e não a vida e que a gravidade atua em mim e que sou um produto multicultural e que não sou prova de mais ninguém, só de mim mesmo.
É saber os limites que me faz livre; e é a extenuante procura pelos limites que move a humana massa enérgica, porque todos queremos ser livres, todos queremos entender os limites, as fronteiras de tudo o que existe para nós; o resto, o externo a isto, é tão importante como a realidade para uma fantasia.

Conhecimento é liberdade; ser livre é conhecer, é entender as opções perante o precipício, o que significam – tudo o resto é opressão, cruel desumanização que impomos uns nos outros, numa debilitante e irónica tentativa de nos ajudarmos.


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