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Super-heróis do século XXI.


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Um quadrado informativo conta-me de um esfaqueamento no meio da rua; por baixo, um outro descreve-me onde param os direitos humanos na Hungria. Ali, no lado esquerdo, é um retângulo que me chama, quer explicar-me onde andam as celebridades dos anos noventa (quem vai perder a reunião dos Friends?) e, no lado direito, brilham-me as luzes das promoções mais agressivas de sempre da Worten.

Onde estão os heróis do século XXI?
Que roupas vestem eles?
Hoje, já se encontra de tudo, na internet; para passarem despercebidos, terão de se esforçar três vezes mais – uma câmara no sítio errado, no segundo errado, e é o fim do anonimato para o complexo mundo digital onde nada se perde, tudo se transforma.

Sem querer e sem querer saber, já sei mais sobre os acontecimentos bombásticos de hoje, de há 12 horas atrás, do que da minha própria vida; e de 12 em 12 horas, mudam-se as vontades, o foco jornalístico, o tema da semana – e a minha memória a curto-prazo vai atrás.
Agora, funciono em ciclos de 12 horas de informação; se é algo revolucionário ou só a mais recente cirurgia plástica, está fora do meu controlo; entretêm-me e o meu cérebro assimila e absorve cada uma destas lutas de gladiadores.

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Caiu um prédio em Miami; nenhum herói chegou a tempo de segurar o edifício. Já os jornalistas foram mais rápidos do que as ambulâncias.

Vejam os destroços; vejam os rostos dos mortos; vejam o último creme anti-envelhecimento.

O seguimento é sempre o mesmo, de tal forma que já espero a publicidade mesmo nos breves períodos em que não a vejo; até lá, vou iludindo os olhos com a realidade.

O capitão dinamarquês caiu inanimado; os colegas de equipa protegem-no para que o mundo não veja um ser humano no seu momento mais frágil: o peito a sofrer as compressões que o mantêm vivo.
O espetáculo é macabro, contudo, e as pessoas estão a queixar-se no Twitter “temos de desviar a câmara. Rápido, filmem a esposa a chorar!”

São estes os heróis do século XXI?
Os que protegem um homem a morrer dos olhos tenebrosos das câmaras?
Passaram, os feitos heroicos, a meros gestos do que deveria ser o mais genérico humanismo?

Cada pessoa é uma ilha, quando Deus é digital e os valores morais um subproduto da mais recente campanha publicitária da Pepsi.

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