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Reflexão sobre o Inside do Bo Burnham.


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Não gosto de críticas; ou concordo com elas porque concordam comigo, ou discordo delas porque discordam comigo. E, com isto, não pretendo invalidar opiniões externas a mim; apenas encontro algo muito mais fecundo numa discussão saudável do que em ler um discurso onde, geralmente, encontro em exagero o autor do texto e em modéstia a obra em questão.
Assim, seria hipócrita da minha parte chamar a isto uma crítica; é então uma reflexão. Discordem ou concordem comigo, ficamos amigos na mesma e têm permissão para usar os comentários para me insultar.


Perante a folha de papel, a tela, ou o que for que se expõe pronto a acomodar a inquietação, poucos poderão afirmar não conhecer o debilitante silêncio da incapacidade. É, acredito, algo intrínseco ao processo criativo; é o que exige a quebra dos limites, das noções clássicas de expressão, das metáforas sobrecarregadas, da verticalidade do pensamento.

O Inside é aterrorizante logo pela premissa: no sangue, é o agarrar nessa incapacidade de expressão e enfrentá-la de frente – um quarto, uma mente e o isolamento da pandemia; e nesta trindade, a pandemia talvez até seja o fator mais preponderante, porque tornou o fazer do Inside numa necessidade; tornou o fazer o Inside num ato menos violento do que não o fazer.


The more I look, the more I see nothing to joke about
Is comedy over?
Should I leave you alone?
‘Cause, really, who’s gonna go for joking at a time like this?
Should I be joking at a time like this?


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No corpo, no entanto, é uma exposição íntima; uma desconstrução das camadas que o mundo digital, a constante informação e contrainformação nos obriga a estruturar; o derrubar das barreiras do artista, do romantismo mediático porque, por trás, há uma pessoa; e a pessoa debate-se também, arrepende-se também, é consciente de si, de quem é e de quem projeta – e da ironia por entre tudo isso; afinal, até na própria tentativa de consciencialização, há um ego intrínseco, há privilégio, há um complexo exercício de reconhecimento dos limites da utopia que o privilégio cria e do desamparo que esse reconhecimento traz.


What can I do to help?
Read a book or something, I don’t know. Just don’t burden me with the responsibility of educating you. It’s incredibly exhausting!
I’m sorry, Socko. I was just trying to become a better person.
Why do you rich fucking white people insist on seeing every socio-political conflict through the myopic lens of your own self-actualization?
 This isn’t about you! So either get with it or get out of the fucking way!


I tried to hide behind my childhood, and that’s not okay
My actions are my own; I won’t explain them away
I’ve done a lot of self-reflecting since I started singing this song


O que se sucede é inevitável: o niilismo, o questionar do indivíduo, do eu, do universo que nos contém, um deteriorar do estado mental, da imagem própria, da autovalidação. Em paralelo, há também um deteriorar do mundo, do planeta, a propagação da pandemia, a incapacidade de a conter, as tentativas infrutíferas, as mortes; e o relógio que nos avisa o mundo está a acabar, que os danos que causamos no planeta vão tornar-se irreversíveis.
Que não temos como combater nada disto.
O aceitar do desastre; do fim do mundo.


You say the ocean’s rising like I give a shit
You say the whole world’s ending, honey, it already did
You’re not gonna slow it, Heaven knows you tried
Got it? Good, now get inside


Twenty-thousand years of this, seven more to go

O “Relógio do Clima”, na Union Square, em Nova Iorque, indica o tempo que temos até atingirmos o ponto de não-retorno.

É a contínua sobreposição e interligação entre o Eu real, o Eu digital e o mundo exterior ao Eu que, para mim, torna o Inside numa peça tão íntima e atual; um retrato fidedigno do que é nascer, crescer e viver no século XXI; o tenebroso assombro de ter toda a urgência, toda a informação, mas nenhum poder para causar mudança; a debilitante conclusão que advém.

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Num mundo nunca tão veloz, tão atulhado; num mundo em que no tempo para encher os pulmões, um universo de catástrofes atravessa-nos em paralelo com um universo de enredos publicitários, e tudo se amalgama numa exausta indiferença; o Inside surge como uma proposta de 87 minutos de contemplação.


Could I interest you in everything all of the time?
A little bit of everything all of the time
Apathy’s a tragedy, and boredom is a crime
Anything and everything all of the time


Não oferece, necessariamente, uma resposta. Talvez porque, perante a complexidade da questão, não hajam respostas – não das que satisfazem os que gostam de respostas sucintas. Porém, por entre a comédia e o drama, a dolorosa vulnerabilidade e a destemida sinceridade emocional, o atravessar do inferno de Dante e os sôfregos pedidos de ajuda:

All eyes on me, all eyes on me
Hey, come on, get your fuckin’ hands up
Get on out of your seats
All eyes on me, all eyes on me, yeah
Heads down, pray for me
Heads down now, pray for me
I said get your fuckin’ hands up
Get up, get up
I’m talkin’ to you, get the fuck up

Há, acredito, uma mensagem importante na peça que, ainda que rebelde, vai se dando a conhecer aqui e ali.
Se no início, o Bo Burnham pergunta-nos se Should I leave you alone? já que, provavelmente, a comédia está morta, termina, no outro extremo, com uma proposta de sermos nós a contar-lhe uma piada.

Hey, here’s a fun idea
How about I sit on the couch
And I watch you next time?

E se pode ser lido um toque cínico na frase, julgo que também pode ter outra interpretação – uma que condiz com o sorriso no último frame: se o mundo vai acabar, talvez o que nos sobra, talvez a única força motriz que nos resta, reside na humildade de aprendermos a rir-nos uns dos outros.


That unapparent summer air in early fall
The quiet comprehending of the ending of it all


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