cxlii

longitudes. (XV)


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Sábado começou; é igual aos outros dias:
Um sol que nasceu e se ergueu e foi brilhar, lá para o alto;
Receberam-no, cá em baixo, com roncos e palavras murmuradas.
Poucos estavam conscientes para o ver, mas houve alguns;
Há sempre alguns.

O verão veio cedo mas não se deve demorar;
Foi o sol quem me contou, nem ele entende estas mudanças.
O calor já me preenche; a mim e ao quarto que o viu nascer
Há duas horas.
Só passando o meio-dia, o quarto deixa de o ver.

O calor já me preenche; e o corpo transpira.
Quer manter-me, sossegar-me, dar-me a paz para ser livre
E escrever; escrever os meus poemas.
Mas são todos uma merda.
Não todos, alguns – os outros são irrelevantes.

Nunca aprendi a não escrever.

Regurgito-os esperançoso;
Talvez um me diga algo que não sei.
Aguardo um dia, para me dar tempo de os esquecer;
Mas esqueço-me também do que queria dizer.
E vejo-me, eu, o autor, a fracassar em interpretar-me.

Talvez seja o calor que me sufoca.
Ainda respiro, mas não chega a todo o cérebro;
Só uma parte de mim recebe oxigénio.
A outra sustém-se, aguarda melhores dias:
O inverno.

Sempre foi o verão a esperançar-me; mas o inverno
Compreende-me – tanto quando uma estação pode.
As noites são longas, os dias, noturnos; e irradia da chuva,
Do vento, das nuvens, uma promessa por dias melhores:
o verão.


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O tempo de falar já terminou, é tempo
Do silêncio.

Os pássaros cantam, chilreiam como pequenos santos;
Os cães ladram ao longe, talvez seja auxílio que pedem,
Presos nas ruínas das correntes.
O calor vem em ondas, sobrepondo-se aos corpos;
A eletricidade resume o mundo a um momento,
Eu sou o centro, o ponto onde tudo começa.
E é tempo do silêncio.

Não tenham filhos, eles nascem aos berros
E o mundo sente nascer a esperança.
Não tenham filhos, os risos são sagrados
Mas os oceanos estão a chegar, o mundo vai acabar
E nós não deveríamos ter filhos.
É tempo do silêncio.

Quero dormir sem vos ouvir, vozes que cantam,
Que chilreiam e ladram. Quero ter a paz;
O despertar na certeza que nenhum som me despertou,
Só eu; que um dia abri os olhos, noutro deixei-os fechar,
E por entre os fui piscando.
E é tempo do silêncio.

O mundo deu tudo o que tem.
As palavras são palavras são palavras são palavras,
Nós somos tudo o resto: os massacres, os deuses,
Os inícios, os fins.
E no fim do mundo, não se canta,
Não se ouvem os pássaros ou os cães;
No fim do mundo, admira-se a viagem,
Contempla-se o momento, aceita-se o passado –
O passado são os rasgos –
E ouve-se. O fim do mundo não se anuncia.
É tempo do silêncio.


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