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Não tenham filhos; tenham pena uns dos outros.


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Nunca estive tão perto de morrer.
Esta frase foi verdadeira apenas no momento em que a escrevi; agora, nesta nova frase, já não o é. Ao relê-la, é verdade no momento em que a digo, em que a penso; mas o momento não o consigo prender, assim que escrevo a primeira letra para o descrever já passou, já terminou e fico sem saber o que fazer dele.
Aprendi a escrever para organizar o mundo, só mais tarde me apercebi da utopia – tarde demais. Ficaram as repercussões.

Onde está a estabilidade?
Disseram-me que é necessária para se ser feliz; mas nada é estável num mundo em perpétua mudança; num mundo que se recusa a facultar-nos com as ferramentas para o descobrir, mas dá-nos perceção, consciência, um espreitar pela fechadura – do outro lado é noite, é tempo de dormir, já se apagaram as luzes.

Não quero sentir o mundo deste modo; e se é tudo uma questão de perspetiva, é masoquismo fazê-lo – sou eu que do canto escuro, voltado para a parede, procuro respostas do que acontece atrás de mim. No entanto, ainda assim, ainda que por entre o desalento que invariavelmente me define, encontre espaço para um pueril otimismo, diabos me levem não o consigo enfiar dentro de mim.
Quero enganar-me, chamar ao tal momento o primeiro do resto da minha vida, não ver as mudanças das estações, o verão a chegar cedo e a não se demorar; quero sentir o caminhar como cíclico, o doce vício, mas é em espiral, é em espiral que meto um pé à frente do outro, todos os pés, eu vejo a engrenagem e é universal, fazem o mesmo, cada um no seu próprio movimento concêntrico, riem-se uns dos outros, não se veem a si mesmos.

Deixem-me esquecer; as roldanas, as correias.


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Tem sido um longo e árduo processo de aprendizagem, mas hoje já pouco me incomoda; só o inevitável.
Preferia ver o mundo acabado, a vê-lo lá chegar devagar; afinal, ainda que um pombo morto seja triste, muito mais triste é vê-lo morrer. Imagine-se um planeta.

Estas mãos não evoluíram para salvar vidas; evoluíram para tudo o resto.
E andamos todos aqui a expressar o mesmo desalento: a arte, a violência, o sexo, os filhos, dizemos todos o mesmo, é apenas a versatilidade das metáforas que nos ilude, que nos volta uns contra os outros, ninguém quer morrer, mesmo quando querem morrer, ninguém quer morrer, porque a morte é o acabar assim, só assim, nada mais. Ninguém verdadeiramente aceita o fim.

De longe, o mundo é comovente: do puto que falha um penálti aos que se matam com uma bomba no peito. De perto, é exatamente como tem de ser; a destruição tem de ser mútua, de mim para vocês e de vocês para mim – é inevitável.

Não tenham filhos; tenham pena uns dos outros.


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