cxlvi

Olha um artista!
(palmas)


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Há uma cadeira no centro, do lado direito uma guitarra no suporte, no lado esquerdo um microfone. O artista entra com fones e uma folha branca na mão; senta-se na cadeira.


Olha um artista! (palmas) Será hoje o dia em que ele nos mostra o seu valor? Diz quem já viu que ele inverteu os papéis numa exposição do ridículo da condição humana: é a guitarra que canta, ele faz o som da guitarra com a voz.

(palmas)

As paredes da casa, ele pintou-as com os padrões mais exóticos, dizem que é em honra de todas as culturas que o homem branco consumiu; nas janelas, colou retratos dos seus debates internos, são gritos e sussurros, pequenos e suaves momentos em que ele mudou o mundo – infelizmente ninguém reparou.

(palmas)

Ele não tem palco, mas apenas porque não quer; está sentado numa cadeira como as outras pessoas se sentariam, mas com o extra de ser um artista. Ao seu lado, tem a guitarra num suporte; do outro, um microfone. Ele acha que isso diz algo maior do que ele poderia dizer, por palavras, até porque por palavras não o saberia dizer, não lhe perguntem, é uma exibição, uma exposição, uma live performance, apreciem.

(palmas)

O artista tem um papel na mão, uma folha branca; vai virá-la agora. Do outro lado, surge um emoji pintado com caneta negra, mas a forma é estranha, não é a típica forma circular. Se lhe perguntarem, no entanto, ele explica que é propositado, não são só as suas fracas capacidades de desenho – ele ainda sonha em pintar um dia, algo honesto e intimista – não, é a forma de um país, do Haiti. Ele viu um documentário no outro dia, um sobre o Haiti e, desde então, é um autoproclamado ativista social pelos direitos das pessoas pobres.

(palmas)

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Já repararam que ele está com fones? É assim que ele encena tudo isto, vai-se ouvindo a ler este mesmo texto e reagindo ao que ouve. É também uma crítica à construção do indivíduo, a este sem-fim de Eus: o que escreve o texto, o que gravou a voz, o que ouve a sua voz a ler o texto, o que encena o texto que ouve a ser lido pela sua voz. Depois, ainda vai haver o que edita o vídeo, o que vê o produto final e, por fim, o que aguarda o reconhecimento por todo este trabalho altruísta.

(palmas)

O trabalho está feito; finalmente o artista relaxa, encosta-se ao encosto da cadeira e liberta a mente, já cansada do desafio de conceber todas estas dimensões, todos os Eus que coabitam como baratas num ninho. Os pequenos pés estão sempre em movimento, as nojentas patinhas a caminhar umas sobre as outras, para frente e para trás, ecoando pelos ossos do crânio, os miolos, as circunvoluções. Deveria ir deitar-se, dormir, mas rejeita a ideia porque os sonhos são projetos, projeções deformadas das baratas que brincam com os controlos cerebrais como um comando nas mãos de uma criança. A noite ainda assim virá, como vem sempre – mesmo que ele não se deite e não durma – e então verá as projeções nas sombras, na penumbra sufocante que só os ares noturnos criam; e ele será apenas mais um animal na fila do matadouro, dos que aguardam, pacientes, pela máquina que desce e lhes corta os sentidos para que não se vejam a sangrar e a morrer à mão da ganância, do desprezo, do opressivo punho que domesticou as bestas da ignorância e do privilégio.

(palmas)

O artista não sabe o que pensar das palmas que ouve.
O que significa quando o sistema aplaude o antissistema?


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